[Sempre] que se abre um livro pela primeira vez, há nisso algo de semelhante ao arrombamento de um cofre. Sim, é exatamente isso: o leitor frenético é como um assaltante que passou horas cavando um túnel para entrar no caixa-forte de um banco. Ele emerge cara a cara com centenas de cofres, todos idênticos, e abre-os um por um. E cada vez que uma caixa é aberta, ela perde seu anonimato e se torna única: uma está cheia de pinturas, outra contém uma coleção de notas bancárias, uma terceira contém jóias ou cartas amarradas com fita, gravuras, objetos sem qualquer valor, talheres de prata, fotos, moedas de ouro, flores secas, arquivos em papel, copos de cristal ou brinquedos para crianças — e assim por diante. Há algo de intoxicante em abrir um [livro] novo, descobrir o seu conteúdo e sentir-se exultante porque, num piscar de olhos, já não se está mais de frente a um conjunto de caixas, mas na presença das riquezas e infelizes banalidades ​​que compõem a existência humana.

Jacques Bonnet  |  Phantoms on the Bookshelves”  

(tradução: Jussara Almeida)

Existem alguns trabalhos tão luminosos que nos enchem de vergonha pela vida escassa a que estamos resignados, que nos imploram para levarmos outra vida, mais sábia e mais completa; trabalhos tão poderosos que nos dão força e nos obrigam a novos empreendimentos. Um livro pode desempenhar esse papel.

Hervé Le Tellier  |  “Enough About Love

(tradução: Jussara Almeida)

Anúncios