Spectre

Cena do novo filme de James Bond, Spectre (2015)


Os casamentos, como os funerais, são dias de esquecimento. Embriagamo-nos de champanhe ou lágrimas, afogamo-nos no leito grosso de ruínas sobre as quais o sangue habitualmente circula, e de repente é noite e não sabemos bem o que se passou. Só depois, nas fotografias, nos damos conta de que estivemos lá — mas dos enterros não se guardam fotografias…

Há uma energia ética nos funerais. Um desespero pelo bem que lança pó de estrelas nos olhos e apaga os pequenos ressentimentos quotidianos. Amanhã voltaremos a invejar-nos uns aos outros. A maldizer o próximo pela calada. A trair grandes amigos em pequenos cafés de negócios. A ser bonzinhos só de vez em quando. Mas amanhã não estarás cá tu para gritar que esse “de vez em quando” é que importa. Amanhã não estarás cá tu para limpar o pó à humanidade e persistir na cintilação das almas. O que é uma alma, diz-me lá? Lançavas a cabeça para trás e repetias, teatral, autêntica: “A alma é um vício”.

“Isso não é teu, é da Fanny Owen da dona Agustina“, recordava-te eu. Encolhias os ombros e rias-te: “Claro, mas esta frase transformou-me a vida. E aquilo que nos transforma é nosso, meu traste, queira ou não queira”.


Inês Pedrosa  |  “Fazes-me Falta”  (Alfaguara, 2003, p. 37 e 99)


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