Poesia



Confundias em mim
o silêncio com a melancolia
quando assistia imóvel
à passagem do tempo
e deixei que me atravessassem
suas marcas.

O silêncio é o recorte da alma —
se estás sem medo
e desapegado
o som do vazio
preencherá o ar:
nenhum bater de asas
nenhuma folha ao vento
será audível —
a vida te inundará —
corpo e sentidos.

Serás aquele que passou
pelo silêncio dos abismos
e sobreviveu
como, creio, eu.


(Fany Aktinol)





Every artist has some form of insecurity… about what they create, whether it’s good enough, [if] it’s gonna stay at the top, or it’s gonna still speak to people. Or is it going to lose its… relevance?

You can’t worry about these things. You have to create things that are truthful. And [by] truthful… I don’t mean truthful with the big “T”, just truthful to yourself. And authentic and honest, and that resonates with the experiences and situations that you’ve gone through.

I often wish that I’d gone through harder things in life so it makes my art richer in… somewhat… some layer, questioning my own identity, for some reason…

It’s not about you. It’s not about all your talents. Because all those things formed us [most] like a pseudo reality, you know, when you find all your validation in what you do. And if you surrender yourself to it [the great abyss] then those things become less important, and you find your creativity again. You find out the reasons why you create.

Creativity… it’s not for yourself. It’s to serve others.


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Morning 1


Amo os primeiros momentos da manhã,
aqueles momentos que ainda ninguém usou,
tão limpos que deves lavar os pés antes de os habitares;
aqueles momentos que cheiram como pétalas de rosa e erva cortada,
e encharcam a tua roupa com orvalho.

Irás chocar com segredos, descobrir milagres
cobertos habitualmente pelo fumo dos automóveis.
Escutarás puros ecos, sussurros e corridas precipitadas.

Amo os primeiros momentos da manhã,
quando o sol tem um só olho aberto,
e o dia é como uma camisa lavada,
sem vincos e pronta a usar;
aqueles momentos que prendem a tua atenção
por serem tão sossegados.


(Coral Rumble)


Morning 2


Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro (O olho do monge estava perto de ser um canto). Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”.

E o monge se calou descabelado.


Manoel de Barros  |  “Poesia completa” (pp. 385-86)



o amor chegará
não duvide
e quando chegar
quando vier de você
se não impedires que se mova
abrirá uma portinha
em que se pode ler
na madeira gasta:
já não é necessário esperar

pequenas luzes
antes insignificantes
parecerão repousadas montanhas
e velhos amigos invisíveis
como a névoa de alguma manhã
primeira, andarão assim
pela casa, sem tempo, sem pressa
e a alma humana, em ti
queira talvez descansar a cabeça
da longa jornada
assim, suavemente

segue, eu desfeito
por essa alameda
e as flores do que és
e as folhas do que és
nada não
te reconhecem no caminho
te saúdam
e vais com elas te integrar
aos aromas da tarde
à brisa do desejo


(Luciano Pessoa)


Pinturas de Fabian Perez

Pinturas de Fabian Perez


… junto a um copo de whisky no aeroporto, digamos, em Minneapolis.


Meus ouvidos ouvem cada vez menos das conversas, meus olhos vão ficando mais fracos, mas não se fartaram.

Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas ou tecidos voláteis,

Observo uma a uma, suas bundas e coxas, pensativo, acalentado por sonhos pornô.

Velho depravado, é a cova que te espera, não os jogos e folguedos da juventude.

Não é verdade, faço apenas o que sempre fiz, compondo cenas dessa terra sob as ordens de uma imaginação erótica.

Não desejo a estas criaturas, desejo tudo, e elas são como o signo de uma convivência extática.

Não é minha culpa se somos feitos assim, metade contemplação desinteressada, e metade apetite.

Se após a morte eu chegar ao Céu, lá deve ser como aqui, só que me terei desfeito da obtusidade dos sentidos e do peso dos ossos.

Tornado puro olhar, sorverei ainda as proporções do corpo humano, a cor da íris, uma rua de Paris em junho de manhãzinha, toda a incompreensível, a incompreensível multidão das coisas visíveis.


Czesław Miłosz  |  “Não Mais”  (Coleção Poetas do Mundo. Editora UNB, 2003, pp. 113-115)


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