A música oferece ao homem um espelho onde, ao se contemplar, pode reconhecer-se invisível. Este reconhecimento equivale ao do tempo concebido como núcleo da existência. Ver-se invisível é sentir-se passar, saber-se criatura, aceitar-se como demanda insaciável de fundamento.


(Santiago Kovadloff, 2003)



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The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.


Elizabeth Bishop  |  “One Art” (The Complete Poems, 1926-1979)




“Live in the moment”, I tell myself. It’s all I can do. Live in the moment. (Alice)


Digo que fomos os que melhor encaramos nossa época e nossas terras inquisitivamente, como um médico a diagnosticar uma doença profunda. Nunca houve, todavia, mais vazio (falsidade?) no coração do que no presente — e aqui nos Estados Unidos. A crença genuína parece ter nos abandonado. Não cremos honestamente nos princípios básicos dos Estados (por todo esse brilho frenético e esses gritos melodramáticos), nem mesmo na própria humanidade. Que olho penetrante não vê, em todos os lugares, através da máscara?

O espetáculo é pavoroso. Vivemos em uma atmosfera de hipocrisia por toda parte. Os homens não acreditam nas mulheres, nem as mulheres nos homens. Uma arrogância desdenhosa dita as regras na literatura. O objetivo de todos os literatos é encontrar algo para ridicularizar. Uma variedade de igrejas, seitas, etc — os fantasmas mais sombrios que conheço — usurpam o nome da religião.

A conversação é uma massa de zombaria. Do engano no espírito, o pai de todas as falsas ações, a prole já é incalculável. Uma pessoa perspicaz e sincera no Departamento da Receita em Washington, que é levada, por conta de seu trabalho, a visitar regularmente muitas cidades ao norte, sul e oeste para investigar fraudes, tem falado muito comigo sobre suas descobertas. A depravação das classes empresariais de nosso país não é menor do que se supunha, mas infinitamente maior. Os serviços oficiais americanos — nacionais, estaduais e municipais — em todas as suas filiais e departamentos, com exceção do Judiciário, estão saturados em corrupção, suborno, falsidade, má administração; e o Judiciário [já] está contaminado. As grandes cidades fedem tanto com o roubo e a patifaria respeitável, quanto com a não-respeitável.

Na vida moderna, frivolidade, amores tépidos, infidelidade débil, objetivos mediocres, ou completa falta de objetivos, apenas para matar o tempo. Nos negócios (esses do mundo moderno que a tudo devoram), o único objetivo é o ganho monetário, por qualquer meio [disponível]. Na fábula, a serpente do mago comeu todas as outras serpentes; e o fazer dinheiro é a nossa serpente do mago, permanecendo hoje em dia como o único mestre em toda esfera de ação.


Walt Whitman  |  Democratic Vistas (1871)

Tradução: Jussara Almeida


Hoje se diz que o luxo é o estímulo mais forte para os pobres, para os flagelados pelo trabalho e para os casados: por causa dele, aspiram à riqueza. Hostiliza-se a satisfação e a filosofia idílica com danos à riqueza e à força de trabalho da nação. Tanta riqueza quanto possível, tanta inveja e desprazer quanto possível, tanta concorrência quanto possível! Em Estados ricos, as artes teriam sido fomentadas da melhor maneira por meio de pessoas luxuosas; a arte como um meio para despertar a inveja dos inferiores, como um fragmento de luxo. Por outro lado, sua irrupção no luxo deve ser uma apologia do luxo e da intenção de insatisfação. As artes acalmam e anestesiam transitoriamente o desprazer de tais estados, em todo caso o enaltecem.


Friedrich Nietzsche
(Sabedoria para depois de amanhã, fragmento 11[180], outubro de 1881)



Ilustração de Allison Kunath (modificada)


Pensamento fundamental da cultura do comércio: a massa inferior, com sua pequena posse, torna-se insatisfeita ao olhar o rico; ela acredita que este é o homem feliz. A massa ativa de escravos, que trabalha em excesso e raramente descansa, acredita que o homem sem trabalho físico é que é feliz (por exemplo, o monge — é por isso que os escravos tornaram-se monges de bom grado). O homem flagelado pela cobiça e raramente livre acredita que o erudito, o contemplativo e o religioso é que são homens felizes. O nervoso e entusiasmado acredita que o homem de uma única grande paixão seja o feliz. O homem que nunca conheceu nenhuma distinção crê que o mais honrado seja o feliz. O que se possui raramente e em pouca quantidade é o que provoca na fantasia das pessoas a imagem do feliz, e não o que lhes falta. A falta produz a indiferença em relação ao oposto da falta.


Friedrich Nietzsche
(Sabedoria para depois de amanhã, fragmento 11[246], outubro de 1881)


Foto/Photo: Abbas


Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


(Cecilia Meireles)