A beleza aqui é como se a gente a bebesse, em copo, taça, longos, preciosos goles, servida por Deus. É de pensar que também há um direito à beleza; que dar beleza a quem tem fome de beleza é também um dever cristão.

(Guimarães Rosa)


Quando a sensibilidade atinge alturas vertiginosas e consegue trazer de volta consigo formulações de pensamento tão sublimes como as deixadas por esses artíficies da linguagem, poetas capazes de quase traduzir o intraduzível, sentimo-nos também alçados a uma atmosfera mais suave, mais rarefeita, que nos eleva para além do denso ar que respiramos cotidianamente.

Guimarães exerce esse efeito sobre nós, assim como tantos outros que já nos fizeram sorrir, sonhar, sofrer, chorar, caminhar em nuvens ou nos arrastarmos por profundezas de densa escuridão. Tantos nomes pipocam em nosso pensamento agora – Dante, Blake, Rilke, Rumi, Kazantzakis, Joyce, Dostoiévski – que nos sentimos encolher nessa pobre e grosseira tentativa de ordenar palavras e ideias para desafogar um pouco nosso caos interior.

O nome deste blog inspira-se em Guimarães (tirado do livro “Relembramentos – João Guimarães Rosa, Meu Pai“, escrito por sua filha Vilma Guimarães Rosa), e a ele devemos muitos momentos do mais puro divertimento com as brincadeiras da linguagem e a profundidade das expressões sem par.

Bjus, Jussara & Carol


[…] Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens.”

(João Guimarães Rosa)




[…] Quando a gente lê alguém como Exupéry, como Rilke, como Proust, sente uma certa pena de não ter escrito aquilo. Quase uma inveja. Uma vontade esquisita de plagiar. Mas essas coisas ao mesmo tempo nos animam. Ainda há muito a dizer. Milhões de coisas mais, que Proust, Rilke e Exupéry não disseram. E por que eu não posso dizer algumas delas? Então, a sensibilidade que me coube terá sido só para sofrer-me e sofrer os outros.

Em horas assim, me apaixono por ti, ó íntimo amigo, companheiro, irmão caderno…

(Antônio Maria em “O Diário de Antônio Maria”, p. 101 – Organizado por Joaquim Ferreira dos Santos)




[…] Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amá-la. Eu jogo com elas como se lançam dados: acaso e fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento.

Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o mais fino invólucro dos nossos pensamentos. Sempre achei que o traço de um escultor é identificável por um extrema simplicidade de linhas. Todas as palavras que digo – é por esconderem outras palavras.

Qual é mesmo a palavra secreta? Não sei é porque a ouso? Não sei porque não ouso dizê-la? Sinto que existe uma palavra, talvez unicamente uma, que não pode e não deve ser pronunciada. Parece-me que todo o resto não é proibido. Mas acontece que eu quero é exatamente me unir a essa palavra proibida. Ou será? Se eu encontrar essa palavra, só a direi em boca fechada, para mim mesma, senão corro o risco de virar alma perdida por toda a eternidade. Os que inventaram o Velho Testamento sabiam que existia uma fruta proibida. As palavras é que me impedem de dizer a verdade.

Simplesmente não há palavras.

O que não sei dizer é mais importante do que o que eu digo. Acho que o som da música é imprescindível para o ser humano e que o uso da palavra falada e escrita são como a música, duas coisas das mais altas que nos elevam do reino dos macacos, do reino animal, e mineral e vegetal também. Sim, mas é a sorte às vezes.

Sempre quis atingir através da palavra alguma coisa que fosse ao mesmo tempo sem moeda e que fosse e transmitisse tranqüilidade ou simplesmente a verdade mais profunda existente no ser humano e nas coisas. Cada vez mais eu escrevo com menos palavras. Meu livro melhor acontecerá quando eu de todo não escrever. Eu tenho uma falta de assunto essencial. Todo homem tem sina obscura de pensamento que pode ser o de um crepúsculo e pode ser uma aurora.

Simplesmente as palavras do homem.

(Clarice Lispector)

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Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago… – foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo; que, quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso até me serviu de bom consolo. E eu nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ia.”

(“Grande Sertão:Veredas”, Guimarães Rosa)


Mãe, que é que é o mar, mãe? Mar era longe, muito longe dali, espécie de lagoa enorme, um mundo d’água sem fim. Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. ‘Pois mãe, então o mar é o que a gente tem saudade?'”

(“Campo Geral”, Guimarães Rosa)


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