Confundias em mim
o silêncio com a melancolia
quando assistia imóvel
à passagem do tempo
e deixei que me atravessassem
suas marcas.

O silêncio é o recorte da alma —
se estás sem medo
e desapegado
o som do vazio
preencherá o ar:
nenhum bater de asas
nenhuma folha ao vento
será audível —
a vida te inundará —
corpo e sentidos.

Serás aquele que passou
pelo silêncio dos abismos
e sobreviveu
como, creio, eu.


(Fany Aktinol)





Every artist has some form of insecurity… about what they create, whether it’s good enough, [if] it’s gonna stay at the top, or it’s gonna still speak to people. Or is it going to lose its… relevance?

You can’t worry about these things. You have to create things that are truthful. And [by] truthful… I don’t mean truthful with the big “T”, just truthful to yourself. And authentic and honest, and that resonates with the experiences and situations that you’ve gone through.

I often wish that I’d gone through harder things in life so it makes my art richer in… somewhat… some layer, questioning my own identity, for some reason…

It’s not about you. It’s not about all your talents. Because all those things formed us [most] like a pseudo reality, you know, when you find all your validation in what you do. And if you surrender yourself to it [the great abyss] then those things become less important, and you find your creativity again. You find out the reasons why you create.

Creativity… it’s not for yourself. It’s to serve others.


Anúncios

John Keats pintado por Benjamin Robert Haydon 




A alcunha comum deste mundo entre os equivocados e supersticiosos é “um vale de lágrimas”, do qual seremos redimidos por uma certa intervenção arbitrária de Deus, e levados ao céu. Que noção circunscrita e arranjada! Chamem o mundo, se assim desejarem, de “o vale da edificação das almas”. Então vocês descobrirão para que serve o mundo (agora estou falando nos mais elevados termos para a natureza humana, admitindo-se que ela seja imortal, o que eu vou tomar aqui como certo com o propósito de apresentar um pensamento que me ocorreu a respeito dela). Digo “edificação das almas”, alma como algo distinto da inteligência. Pode haver inteligências ou centelhas da divindade aos milhões, mas elas não são almas até que adquiram identidades, até que cada uma seja pessoalmente ela mesma. Inteligências são átomos de percepção, elas sabem e vêem e são puras, em resumo, elas são Deus. Como, então, elas são almas a serem criadas? Como, então, essas centelhas que são Deus podem receber uma identidade, de modo a possuírem para sempre uma bem-aventurança [que é] peculiar à existência individual de cada uma delas? Como, a não ser por meio de um mundo como este?

Desejo sinceramente considerar este ponto, porque penso que é um sistema de salvação maior que a religião cristã — ou melhor, é um sistema de criação do Espírito. Isso se realiza através de três grandes materiais agindo um sobre o outro por uma série de anos. Esses materiais são a Inteligência — o coração humano (distinguido da inteligência ou Mente) — e o mundo ou espaço elementar adequado para a ação da mente e do coração, um sobre o outro, com o propósito de formar a alma ou inteligência [que está] destinada a possuir o sentido de identidade. Mal posso expressar o que vagamente percebo — e, ainda assim, penso que o percebo –, o que você poderá julgar, quanto mais claramente o colocar, de forma mais simples possível. Chamarei o mundo de uma escola, instituida com o objetivo de ensinar crianças pequenas a ler. Chamarei a criança capaz de ler de alma, criada por essa escola e sua cartilha. Você não vê o quão necessário é um mundo de dores e dificuldades para ensinar uma inteligência e torná-la uma alma? Um lugar onde o coração deve sentir e sofrer de mil maneiras diferentes!

O coração não é apenas uma cartilha, é a bíblia da mente, a experiência da mente; é a teta da qual a mente ou inteligência suga sua identidade — tão variadas quanto as vidas dos homens, tão variadas tornam-se suas almas e, assim, Deus cria seres individuais, almas, almas idênticas [a partir] das centelhas de sua própria essência…


John Keats  (em carta para seu irmão George, 21 de abril de 1810)

Tradução: Jussara Almeida


>> Para mais trechos de cartas de Keats, com comentário (em inglês).


Posted by: Jussara


No mundo ocidental, a batalha entre tradição e traição ganha especial atenção na área da família. Para o indíviduo, a família representa a tradição, a organização que responde pelos interesses reprodutivos e do corpo. A família é, portanto, o território da tradição e, como não poderia deixar de ser, também o da traição. O casamento nada mais é do que um contrato, por tratar-se de uma área de interesses conflitantes. Normalmente acreditamos que os conflitos em questão são os de interpretação de dois indivíduos diferentes. O conflito, no entanto, se expressa muito mais pelas tensões inerentes à natureza humana do que pela compreensão distinta dos direitos e deveres. Foi o corpo que instaurou a instituição do casamento e é justamente através dele que ela é traída por todos. Não há forma de não se trair um casamento se não é reconhecida a tensão presente em cada indivíduo, na natureza de cada um.

Querendo cumprir seu desígnio de procriação através do instrumento de sua anatomia, o homem é sempre tentado pela mulher. A tentação original de Eva não é da sensualidade posteriormente reprimida pela tradição — é ser, para o homem, o objeto da redescoberta de que a tensão lhe é interna. Cada vez que um homem se vê tentado por uma mulher, vem a dúvida sobre preservar o “correto” do passado ou buscar o “bom” do momento. O correto é tão importante para seu corpo como o “bom”. Na perspectiva do passado, o “correto” preserva melhor; na do  futuro, é o “bom” que tem esse atributo. O homem que sublima sua paixão, sua rebeldia, suportando um casamento que se tornou unicamente tradição, é um traidor. Esse casamento se sustenta para dar conta da sobrevivência da semente, mas sufoca a sensação de que a redenção realmente se daria na traição. Sua concepção se baseia num “correto” rígido amedrontado pelas sombras dos “novos” bons que ameaçam tanto o contrato como a tradição. O homem que rompe o contrato através de amantes também trai. Pode trair preservando o casamento, ou seja, mantendo o “antigo correto” e fazendo uso do “novo bom”; ou pode trair abraçando um novo contrato. Na última possibilidade, busca um “novo correto” para possibilitar um “novo bom”, mas tem de enfrentar a cruel consciência de que este novo correto poderá também tornar-se, no futuro, impróprio diante de um outro “bom”. Tal consciência enfraquece o desejo de investir no “novo correto”, percebendo-o em termos absolutos tão frágil quanto o “antigo correto”. A maioria sucumbe às duas primeiras condutas. Todo homem é um potencial traidor da mulher no que diz respeito à possibilidade de surgir um outro “bom” que lhe indica uma melhor possibilidade de cumprir seu desígnio de procriar.

A mulher, por sua vez, também é uma traidora em potencial. Seu desejo profundo de que Adão como da árvore expressa o sonho de que este prove de tantas árvores quantas se façam necessárias para tornar-se mais próximo de D’us. A mulher não trai quantitativamente, como o homem, mas qualitativamente. Ela espera um príncipe ou, na concepção perfeita, o casamento com o próprio D’us. As fantasias masculinas de que as mulheres possuem o poder de devorá-los se constroem a partir do sonho feminino de um homem ideal. Um homem que se esperava fosse o melhor “bom” possível e que justificava o “correto” assumido em contrato. A expectativa é, no entanto, frustrada quando a mulher depara com um “homem” não ideal. Cada vez que uma mulher vê um homem que lhe parece mais disposto a provar da árvore da transgressão, da imortalidade, sente-se tentada a trair o “antigo correto” por conta do “novo bom”. A qualidade  desse novo “bom” cria as mesmas tentações de traição que o homem experimenta. O homem trai para resgatar sua semente fora do aprisionamento quantitativo da monogamia; a mulher trai para resgatar sua semente fora do aprisionamento qualitativo da monogamia.

A traição será sempre uma medida presente para um ser humano cuja visão mítica de si é daquele que transgride no paraíso ou daquele que “sai da casa dos pais”. A resolução do conflito está em seu reconhecimento e no estabelecimento de relações entre homens e mulheres que aceitem essas tensões como inerentes à própria vida. O mundo ideal do futuro será um mundo também de tensões, mas estas não serão projetadas sobre o outro. Querer exorcizar o traidor dentro de si apontando-o no outro é a condição não messiânica de nossa civilização.

Viver em um mundo que ainda crucifica o “outro”, o desviante, sem poder escapar da responsabilidade de representar os interesses de nossa natureza mutante, requer muito cuidado. E, mesmo com todos os perigos e riscos, devemos autorizar tanto o corpo como a alma, pois não existe outra saída para dar conta de nossas traições e encontrarmos a paz. Essas relações proporcionam um importante elemento de cura e são instrumento imprescindível para trilhar o caminho humano.

O ato de crucificar, por sua vez, acontece tanto no mundo exterior como no íntimo de cada indivíduo. No lugar onde as vertentes horizontal e vertical se encontram, há um potencial destrutivo, um potencial de grandes culpas que tem o poder de paralisar e extinguir a vida do indivíduo e as chances de sua espécie. Saber viver esse ponto de intersecção sem se deixar dominar por impulsos tão legítimos e ambíguos é um segredo que tem impacto sobre a qualidade de vida, e que promove maior poder de adaptação e sobrevivência. Na estrela de David,  um triângulo está apontando para cima e um outro para baixo. O de cima para baixo aponta para a esfera da “obediência”; o de baixo para cima, a sagrada esfera da “desobediência”. Quando Jacó foge depois de haver roubado a primogenitura do irmão — na verdade, uma fuga de si mesmo –, ele sonha com anjos que sobem e descem uma escada.

O desejo de Jacó era legitimar o movimento de subida de anjos, não o de descida. Ele buscava justificar a insuportável sensação do sagrado que percebia no movimento de subir, ou melhor, de transgredir. Sua saga, marcada pela busca de legitimar o ato de desobedecer o “pai” — seu passado e seu D’us –, é exemplo da tragédia humana e de sua glória.

O resgate da semente verdadeiramente humana que produz tradição e traição é a questão humana por excelência. Nossos dias são tomados por essa preocupação, por conviverem em nós dois mundos — o do traído e o do traidor. Talvez este seja o imaginário que o Ocidente produziu: o judeu somos todos nós, todos temos o sangue judeu nas veias. Somos, portanto, o outro, o traidor.

O uso do outro para falar de si tem sido perverso, mas revela, sobretudo, a intensidade do auto-ódio existente no ser humano. O antissemitismo é marca deste auto-ódio, como também as guerras, as perseguições religiosas e ideológicas. A dor profunda de reconhecer este auto-ódio implica a imediata aceitação de que traidor e traído são a mesma pessoa.

Qualquer fidelidade que não contemple essas duas facetas da natureza humana gera crises de ordem pessoal e coletiva. O mundo contemporâneo atravessa um grande desafio. Acampada à margem de um mar de enormes proporções, a espécie humana enfrenta um mundo que realmente se estreitou. Ele é estreito tanto pela moral como pela rebeldia. A repressão vitoriana e o licencioso mundo hippie são lugares estreitos para um ser humano que aos poucos percebe que busca algo diferente. A alienação e a falta de “causas” são os sintomas mais evidentes de que a busca não se dá pela extirpação cirúrgica desse conflito, mas por uma tentativa de vivê-lo de forma ampla no íntimo de cada um de nós.

No dia em que o ser humano enfrentar seu conflito interno, quando vir que sua integridade psíquica está ameaçada por duas vontades primordiais, então o mar se abrirá. Quando atravessar o mar cantando, movido por sua catarse, se verá em meio a outro jardim. Ali, tudo será proibido e pronto para ser transgredido. Em paz com sua alma, o ser humano vagará por entre as opções de desobediência. Uma árvore, no entanto, permanecerá permitida. Será a árvore da lembrança de um período em que o “correto” cumpria a função de velar o medo e a culpa. De mãos dadas com o Criador — o animal imoral –, terá reencontrado a paz de sua nudez. Despido e ciente desta condição, o homem terá encontrado a tão esperada imortalidade da alma. Esta imortalidade, produzida a partir da imoralidade, se revelará a árvore da vida. Todo chão pisado será um terreno seco em meio ao mar e todo corpo será uma ponte até um novo corpo. A transgressão terá sido a trajetória humana rumo à transcendência na história — seu longo curto caminho.



Nilton Bonder  |  “A Alma Imoral” (Rocco, 1998, pp. 127-131)


Posted by: Jussara


Vivo sempre no presente. O futuro, não o conheço. O passado, já o não tenho. Pesa-me um como a possibilidade de tudo, o outro como a realidade de nada. Não tenho esperanças nem saudades. Conhecendo o que tem sido a minha vida até hoje – tantas vezes e em tanto o contrário do que eu a desejara , que posso presumir da minha vida de amanhã senão que será o que não presumo, o que não quero, o que me acontece de fora, até através da minha vontade? Nem tenho nada no meu passado que relembre com o desejo inútil de o repetir. Nunca fui senão um vestígio e um simulacro de mim.

O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto.

Bernardo Soares (Fernando Pessoa)  

via o futuro não é mais o que era


Posted by: CAROL


É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.

(Autor desconhecido)