.

Uma linda “prece” do querido Antonio Maria. Esta é só para meu muito amado pai!

Te amarei até meu último suspiro, mesmo que não possa mais repetir estas palavras em teus ouvidos adormecidos. Mesmo que tua imagem não descanse mais em minha retina, mas apenas nas cores distantes de minha memória.

Que Deus (se existir) ao menos conserve minha capacidade de recordar, ainda que não possa ou não queira conservar minha juventude e minha saúde, para que estejas sempre comigo até o momento em que eu também tenha que partir.

Enquanto estiver viva e puder lembrar e sonhar, tu viverás em mim…
.

Permita que eu deseje, agora, tomado e vencido pelas urgências que de mim exigem, um canto de sono e preguiça onde ainda não se tenham inventado o telefone e o relógio.

Deixa que eu seja pessoal em mais uma crônica para, ao medo das tarefas que se me impõem, querer, ardentemente, que não tirem do rol das pessoas úteis, que me esqueçam e que me abandonem, que me larguem, enfim, onde seja lícito viver ignorado e despercebido.

Sinto-me vazio de poesia, esgotado de um resto de doçura que tanto prezava e, coagido pelos que revendem minhas idéias, dói-me o tempo e o esforço gastos, os ardis e os truques que emprego para arrumar palavras e construir frases de efeito. Lamento enganar a todas.

Permite que eu deseje, agora, um silêncio que me contagie de tristeza, uma calma boa e definida para, num momento espontâneo e sossegado, escrever as grandes definições, as palavras que me envaideçam, os versos e as cantigas que me elevem, querida, à glória e à resolução do teu desmesurado amor.

Através dessa janela vejo coisas que, antigamente, eram poderosas e fecundas. O céu repete o azul de tantas tardes acontecidas em maio, as últimas quaresmeiras do verão agonizam na saia do morro, os homens martelam a pedreira… e eu não sinto vontade de rir ou de chorar.

Na rua, arrastando uma corrente eterna e incompreensível, passa mais um caminhão da Standard Oil… e eu não sinto nenhum vexame político, nenhuma revolta social. Por isso e pela descrença que em meu espírito se acentua, permite que eu deseje ser só — ou teu somente — num lugar do mundo onde os gritos não tenham eco, onde a inveja não ameace, onde as coisas do amor aconteçam sem testemunhas.

Livrem-me da pressa, das datas, dos salários e das dívidas e a todos serei agradecido, num verso submisso.

Livrem-me de mim, de uma certa insaciabilidade que apavora e de todos serei escravo numa humilde canção.

Permite que eu só queira, agora, esse canto de sono e preguiça, onde não necessite dos atletas, onde o céu possa ser céu sem urubus e aviões, onde as árvores sejam desnecessárias, porque os pássaros se sintam bem em cantar e dormir em nossos ombros.

Antônio Maria  |  “Despedida” (31/05/1963)



Posted by: CAROL

Em 11 de março de 1957, Antônio Maria repete, em seu diário, trechos de um artigo seu para o O Globo, que ele acreditava conterem alguma verdade…

….

Nenhuma emoção é mais forte que a de entrar no quarto da amante que dorme. Sentir-lhe o cheiro e o calor no ar do quarto. […] Tocar-lhe a pele poderosa. Nela, encontrar intensificação.

[…] Só se ama uma mulher quando lhe tememos a pele e o cheiro. Quando a ideia de sabê-la em outra cama nos torna capazes de matá-la ou perdoá-la. Geralmente, matá-la e perdoá-la são duas coragens difíceis. Fica-se, simplesmente…

Ama-se, angustiadamente, o vestido pendurado da amante ausente. O vestido íntimo e caseiro. […] Os sentimentos das nossas constantes paixões! Enlevo, carinho, generosidade, sacrifício. Infelizmente, porém, por mais que se tenha feito para negá-lo, o verdadeiro amor é aquele que nos abrange e nos vence como um vício. Nunca se diga que o amor é fácil, antes de vivê-lo como um vício. 

[…] A carne não mente. Apesar da má companhia em que vive, ainda não chegou à perfeição desse erro. Vivamos, em vez das palavras.”

(“O Diário de Antônio Maria”. Civilização Brasileira, 2010, p.15)

….

.

Posted by: Jussara 

Tenho lido com certa constância, nos útlimos tempos, algumas crônicas de Antônio Maria (se não sabe quem ele foi, busque no Google) e não posso evitar de sentir uma grande simpatia pelo homem. O jeito descomprometido e alegre com que escreve, mesmo quando fala de coisas bem tristes, parece um refresco no meio de tantas leituras, conversas e ideias “pesadas” nas quais ando imersa há pelo menos uns quatro anos. Esse Antônio simples e divertido — ora parecendo ainda um menino, ora um homem maduro e cansado da vida — tem contribuido para melhorar minha frequência respiratória, por mais estranho que isso possa parecer. É que ela anda alternando consideravelmente entre muito acelerada e quase imperceptível, por conta do tal “peso” sentido no corpo e na alma. Seriam reflexos de algum distúrbio psicológico ou uma doença física mesmo? Não sei e nem pretendo averiguar. A vida que decida o que quer fazer comigo, porque não me importo muito. Só me importa o “agora”, digo com sinceridade. Às vezes a vida nos reduz a isso, mesmo contra a nossa vontade.

Acho que cheguei ao meu limite. Já basta a vida que não dá trégua um só minuto que seja; que, mesmo quando me escondo do mundo, vem atrás de mim para me “puxar o pé” durante a noite. A atmosfera está sufocante e os minutos voam, mas como se estivessem se arrastando eternamente — não deu para evitar o paradoxo, porque a sensação é essa mesma, e é opressiva! Por isso, não vou mais desperdiçá-los com esses assuntos “deprê” (como se costuma ouvir por aí), se puder evitar. Não quero mais conversar sobre eles, não quero ouvir ninguém dando palestras eruditas a respeito e nem quero ler nada que não seja obrigatório para meu trabalho neste momento… Basicamente, uma medida necessária à minha “saúde diária”. Nada além disso!

Um pouco de leveza, mesmo que insustentável, também é necessária para sobreviver. E essa “leveza” só alguns como Antônio Maria (ou o querido Quintaninha, um de meus poetas favoritos) conseguem dar, quase como se não soubessem o que estão fazendo! Isso exige um talento muito específico e, mais do que isso, uma certa “qualidade cardio-anímica” (desculpem pela invenção terminológica) que poucos possuem. Trocando em míudos, é preciso uma certa doçura no coração, uma certa alegria inadvertida na alma, para poder conceder leveza aos outros que estão ao nosso redor — ao invés de lhes aumentar o inescapável fardo que todo ser humano carrega na alma, mesmo quando faz de tudo para se livrar dele. Cansei dos que só oferecem um coração frio ou um “espírito” que não se contenta em carregar a própria escuridão sozinho e tem de despejá-la sobre os demais todos os dias, sem dó nem piedade. Para isso não preciso de ninguém, pois basta-me a minha própria companhia. Cada um carrega seu próprio inferno partiular, isso não é novidade nenhuma.

Estou tão de saco cheio, que a vontade é chutar tudo para o alto — largar mão de nadar, mesmo estando quase na beira da praia — e sair andando sem direção. Sei bem que fazer isso significaria jogar no lixo alguns anos de esforço, dedicação e tudo o mais o que investi — inclusive dinheiro (e não foi pouco) — para realizar algo que agora me parece absolutamente inútil. E a tentação tem sido maior do que esperava. Todas as poucas vezes que isso aconteceu comigo, que essa vontade ficou me rondando até se tornar insuportável, eu acabei chutando  MESMO tudo para o alto. E nem olhei para trás tempo o suficiente para me arrepender. Será que eu deveria me preocupar? Provavelmente.

Parece pouca coisa dizer que é bem frustrante perceber que todas as decisões (ou a maioria delas), tomadas na última década, foram equivocadas. A sensação pode ser avassaladora se não respirarmos fundo, mesmo com certo esforço, e enfiarmos algumas ilusões à força goela abaixo. Só engolindo “fantasias” (ainda que sabendo bem o que elas são) é possível continuar andando … ou nadando. Só espero que a “água nos pulmões” não acabe comigo quando já estiver de pé na orla, olhando para a terra à minha frente e pensando: “que diabos estou fazendo aqui?”

Bem, mas chega desse papo que também está “deprê” e vamos ao Antônio, que me agrada muito mais do que as minhas divagações.

Acho que entendo bem o que ele diz nessa crônica. E não me envergonho de dizer… Lembro-me de todos os momentos (muitos), ao longo de minha vida, em que percebi com clareza a minha feiúra, a de fora e a de dentro.




Menino só sabe que é feio, no colégio, quando o padre escolhe os que vão ajudar à missa, os que vão sair de anjo, na procissão, e os que vão constituir a diretoria do Grêmio Mariano.

Eu soube que não era bonito em 1928, no Colégio Marista de Recife. Nunca fui escolhido. Mas sem a menor tristeza, sem concordar até. Aquele julgamento era precipitado, pois (estava convencido) ainda não havia nada de definitivo sobre o bonito e o feio, a beleza e a fealdade. Quais seriam as demarcações? A exata limítrofe, quem seria capaz de determinar? Se não existia a explicação lógica do feio e do bonito, a notícia da minha feiura não me causava mal nenhum. Ao contrário, livrava-me dos tributos que teria que pagar se fosse bonito, ajudando missa e saindo de anjo, à frente das procissões.

Na mesa do café, eramos cinco irmãos. Havia bolo de mandioca, requeijão, bananas fritas, pão torrado e bolacha d’água. Eramos cinco irmãos e, dos cinco, quatro eram bonitos. Vá lá, eu era o feio. Então, por que minha mãe gostava mais de mim? Ela, que nos zelava a todos, que nos conhecia pelo avesso e pelo direito, por que gostava mais de mim? De pena não era, porque pena é uma coisa e amor é outra. Menino conhece. O gesto complacente, por mais carinhoso, é sempre vacilante e triste. O gesto de amor chega a ser bruto, de tão livre, alegre e descuidado.

Minha mãe gostava mais de mim. Eu sabia, e ela sabia que eu sabia. Em tudo a nossa cumplicidade. Na fatia do bolo, na talhada de requeijão e no sobejo do seu copo d’água. Nossa cumplicidade até hoje existe, quando de raro em raro nos encontramos.

Da mesa do café víamos pela vidraça os canteiros de terra negra e as rosas de maio. Vinha o cheiro úmido da terra molhada, mais que o das pálidas rosas da minha infância.

Minha mãe e eu. Nossos olhos tão parecidos.

Minha mãe só tem um defeito. Não ser minha filha. Sempre foi metida a saber mais que eu.

Só soube que era feio quando amei pela primeira vez. Vi-me, então, corajosamente… e não era como gostaria de ser. No coração, um amor tão bonito. Ninguém iria acreditar, mesmo dizendo, mesmo eu explicando, mesmo eu jurando.

Apaguei a luz, tocava o concerto nro. 3 de Beethoven e, no fnal, apesar do tom ser menor, o lirismo era tão ardente que tudo ficou entendido, entre mim e a minha feiúra: eu a amava e não a abandonaria até a morte.

(Antônio Maria, “Crônicas”, 26/09/1961)



Beethoven: Piano Concerto No. 3  |  Uchida · Rattle · Berliner Philharmoniker



(Jussara – 00h41)


É preciso amar, sabe? Ter-se uma mulher a quem se chegue, como o barco fatigado à sua enseada de retorno. O corpo lasso e confortável, de noite, pede um cais. A mulher a quem se chega, exausto e, com a força do cansaço, dá-se o espiritualíssimo amor do corpo.

Como deve ser triste a vida dos homens que têm mulheres de tarde, em apartamentos de chaves emprestadas, nos lençóis dos outros! Como é possível deixar que a pele da amada toque os lençóis dos outros! Quem assim procede (o tom é bíblico e verdadeiro) divide a mulher com o que empresta as chaves.

Para os chamados “grandes homens”, a mulher é sempre uma aventura. De tarde, sempre. Aquela mulher, que chega se desculpando; e se despe, desculpando-se; e se crispa, ao ser tocada, e cerra os olhos, com toda a força, com todo desgosto, enquanto dura o compromisso. É melhor ser-se um “pequeno homem”.

Amor não tem nada a ver com essas coisas. Amor não é de tarde, a não ser em alguns dias santos. Só é legítimo quando, depois, se pega no sono. E há um complemento venturoso, do qual alguns se descuidam. O café com leite, de manhã. O lento café com leite dos amantes, com a satisfação do prazer cumprido.

No mais, tudo é menor. O socialismo, a astrofísica, a especulação imobiliária, a ioga, todo ascetismo da ioga… tudo é menor. O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar com a vida inteira.

(Antônio Maria, 27.01.1963, em “Crônicas”. Ed: Paz e Terra, 1996, pp. 59-60)


Posted by: Jussara

Antes de voltar ao trabalho, essa é pro rabugento mencionado anteriormente, embora ele não leia este blog (espero!!)… E, caso lesse, não saberia que é dele que estou falando (conheço quatro pessoas com a mesma característica a quem chamo pelo mesmo adjetivo carinhoso. Se um de vocês ler isto aqui, saiba que pode ser OU NÃO você! hahaha)…

Troquei o gênero na letra de Antonio para combinar. Sorry, Toninho!

Por que sentimos saudade de quem não dá a mínima pra gente? Por que a gente gosta de quem não merece? Por que tem uns chatos que ficam pendurados em nosso pensamento?

Por que? Por que? Por que? … ok, chega! Estou com 5 anos de idade novamente, depois dessa!

See you later, alligator… Ju

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Pense Em Mim

Antônio Maria

……
Em sua vida,
Quando estiver sozinho,
Pense em mim, pense em mim,
Em sua noite,
Quando faltar carinho,
Pense em mim, pense em mim.

Minha saudade é sincera,
E vive da espera,
Do bem que não vem,
Minha esperança envelhece,
Meu riso entristece,
E eu não conto a ninguém.

Em sua vida,
Quando não houver mais nada,
Pense em mim,
Ao menos um minuto, em mim.


.. Rosi Golan cantando “Think of Me”..

……..

Não sou chegada a romantismo, mas o vídeoclipe é tão bonitinho. Gosto da cena dela andando no meio do campo, carregando uma mala.  Adoro flores… UM DETALHE: Na hora em que o carinha está olhando uma banca de livros, dentre os poucos cujos títulos conseguimos ler está o de Douglas Hofstadter, I am a Strange Loop. Douglas é um acadêmico que pesquisa o surgimento da consciência e também a criação artística, assuntos que fazem parte da minha dissertação, de forma indireta (Becker também pesquisou sobre o assunto). Ele ganhou o prêmio Pulitzer em 1980, por outro livro chamado Gödel, Escher, Bach: an Eternal Golden Braid.

No livro que aparece no clipe, Hofstadter investiga as origens da auto-consciência, do surgimento do “eu”. Ele diz: “How do we mirror other beings inside our mind? Can many strange loops of different “strenghts” inhabit one brain? If so, then a hallowed tenet of our culture – that one human brain houses one human soul – is an illusion“. Diferentes “seres” — ou “laços estranhos”, como ele chama — dentro da mesma mente? Hum, bem, pode até ser… Fernando Pessoa que o diga!

………..