Posted by: Jussara


No mundo ocidental, a batalha entre tradição e traição ganha especial atenção na área da família. Para o indíviduo, a família representa a tradição, a organização que responde pelos interesses reprodutivos e do corpo. A família é, portanto, o território da tradição e, como não poderia deixar de ser, também o da traição. O casamento nada mais é do que um contrato, por tratar-se de uma área de interesses conflitantes. Normalmente acreditamos que os conflitos em questão são os de interpretação de dois indivíduos diferentes. O conflito, no entanto, se expressa muito mais pelas tensões inerentes à natureza humana do que pela compreensão distinta dos direitos e deveres. Foi o corpo que instaurou a instituição do casamento e é justamente através dele que ela é traída por todos. Não há forma de não se trair um casamento se não é reconhecida a tensão presente em cada indivíduo, na natureza de cada um.

Querendo cumprir seu desígnio de procriação através do instrumento de sua anatomia, o homem é sempre tentado pela mulher. A tentação original de Eva não é da sensualidade posteriormente reprimida pela tradição — é ser, para o homem, o objeto da redescoberta de que a tensão lhe é interna. Cada vez que um homem se vê tentado por uma mulher, vem a dúvida sobre preservar o “correto” do passado ou buscar o “bom” do momento. O correto é tão importante para seu corpo como o “bom”. Na perspectiva do passado, o “correto” preserva melhor; na do  futuro, é o “bom” que tem esse atributo. O homem que sublima sua paixão, sua rebeldia, suportando um casamento que se tornou unicamente tradição, é um traidor. Esse casamento se sustenta para dar conta da sobrevivência da semente, mas sufoca a sensação de que a redenção realmente se daria na traição. Sua concepção se baseia num “correto” rígido amedrontado pelas sombras dos “novos” bons que ameaçam tanto o contrato como a tradição. O homem que rompe o contrato através de amantes também trai. Pode trair preservando o casamento, ou seja, mantendo o “antigo correto” e fazendo uso do “novo bom”; ou pode trair abraçando um novo contrato. Na última possibilidade, busca um “novo correto” para possibilitar um “novo bom”, mas tem de enfrentar a cruel consciência de que este novo correto poderá também tornar-se, no futuro, impróprio diante de um outro “bom”. Tal consciência enfraquece o desejo de investir no “novo correto”, percebendo-o em termos absolutos tão frágil quanto o “antigo correto”. A maioria sucumbe às duas primeiras condutas. Todo homem é um potencial traidor da mulher no que diz respeito à possibilidade de surgir um outro “bom” que lhe indica uma melhor possibilidade de cumprir seu desígnio de procriar.

A mulher, por sua vez, também é uma traidora em potencial. Seu desejo profundo de que Adão como da árvore expressa o sonho de que este prove de tantas árvores quantas se façam necessárias para tornar-se mais próximo de D’us. A mulher não trai quantitativamente, como o homem, mas qualitativamente. Ela espera um príncipe ou, na concepção perfeita, o casamento com o próprio D’us. As fantasias masculinas de que as mulheres possuem o poder de devorá-los se constroem a partir do sonho feminino de um homem ideal. Um homem que se esperava fosse o melhor “bom” possível e que justificava o “correto” assumido em contrato. A expectativa é, no entanto, frustrada quando a mulher depara com um “homem” não ideal. Cada vez que uma mulher vê um homem que lhe parece mais disposto a provar da árvore da transgressão, da imortalidade, sente-se tentada a trair o “antigo correto” por conta do “novo bom”. A qualidade  desse novo “bom” cria as mesmas tentações de traição que o homem experimenta. O homem trai para resgatar sua semente fora do aprisionamento quantitativo da monogamia; a mulher trai para resgatar sua semente fora do aprisionamento qualitativo da monogamia.

A traição será sempre uma medida presente para um ser humano cuja visão mítica de si é daquele que transgride no paraíso ou daquele que “sai da casa dos pais”. A resolução do conflito está em seu reconhecimento e no estabelecimento de relações entre homens e mulheres que aceitem essas tensões como inerentes à própria vida. O mundo ideal do futuro será um mundo também de tensões, mas estas não serão projetadas sobre o outro. Querer exorcizar o traidor dentro de si apontando-o no outro é a condição não messiânica de nossa civilização.

Viver em um mundo que ainda crucifica o “outro”, o desviante, sem poder escapar da responsabilidade de representar os interesses de nossa natureza mutante, requer muito cuidado. E, mesmo com todos os perigos e riscos, devemos autorizar tanto o corpo como a alma, pois não existe outra saída para dar conta de nossas traições e encontrarmos a paz. Essas relações proporcionam um importante elemento de cura e são instrumento imprescindível para trilhar o caminho humano.

O ato de crucificar, por sua vez, acontece tanto no mundo exterior como no íntimo de cada indivíduo. No lugar onde as vertentes horizontal e vertical se encontram, há um potencial destrutivo, um potencial de grandes culpas que tem o poder de paralisar e extinguir a vida do indivíduo e as chances de sua espécie. Saber viver esse ponto de intersecção sem se deixar dominar por impulsos tão legítimos e ambíguos é um segredo que tem impacto sobre a qualidade de vida, e que promove maior poder de adaptação e sobrevivência. Na estrela de David,  um triângulo está apontando para cima e um outro para baixo. O de cima para baixo aponta para a esfera da “obediência”; o de baixo para cima, a sagrada esfera da “desobediência”. Quando Jacó foge depois de haver roubado a primogenitura do irmão — na verdade, uma fuga de si mesmo –, ele sonha com anjos que sobem e descem uma escada.

O desejo de Jacó era legitimar o movimento de subida de anjos, não o de descida. Ele buscava justificar a insuportável sensação do sagrado que percebia no movimento de subir, ou melhor, de transgredir. Sua saga, marcada pela busca de legitimar o ato de desobedecer o “pai” — seu passado e seu D’us –, é exemplo da tragédia humana e de sua glória.

O resgate da semente verdadeiramente humana que produz tradição e traição é a questão humana por excelência. Nossos dias são tomados por essa preocupação, por conviverem em nós dois mundos — o do traído e o do traidor. Talvez este seja o imaginário que o Ocidente produziu: o judeu somos todos nós, todos temos o sangue judeu nas veias. Somos, portanto, o outro, o traidor.

O uso do outro para falar de si tem sido perverso, mas revela, sobretudo, a intensidade do auto-ódio existente no ser humano. O antissemitismo é marca deste auto-ódio, como também as guerras, as perseguições religiosas e ideológicas. A dor profunda de reconhecer este auto-ódio implica a imediata aceitação de que traidor e traído são a mesma pessoa.

Qualquer fidelidade que não contemple essas duas facetas da natureza humana gera crises de ordem pessoal e coletiva. O mundo contemporâneo atravessa um grande desafio. Acampada à margem de um mar de enormes proporções, a espécie humana enfrenta um mundo que realmente se estreitou. Ele é estreito tanto pela moral como pela rebeldia. A repressão vitoriana e o licencioso mundo hippie são lugares estreitos para um ser humano que aos poucos percebe que busca algo diferente. A alienação e a falta de “causas” são os sintomas mais evidentes de que a busca não se dá pela extirpação cirúrgica desse conflito, mas por uma tentativa de vivê-lo de forma ampla no íntimo de cada um de nós.

No dia em que o ser humano enfrentar seu conflito interno, quando vir que sua integridade psíquica está ameaçada por duas vontades primordiais, então o mar se abrirá. Quando atravessar o mar cantando, movido por sua catarse, se verá em meio a outro jardim. Ali, tudo será proibido e pronto para ser transgredido. Em paz com sua alma, o ser humano vagará por entre as opções de desobediência. Uma árvore, no entanto, permanecerá permitida. Será a árvore da lembrança de um período em que o “correto” cumpria a função de velar o medo e a culpa. De mãos dadas com o Criador — o animal imoral –, terá reencontrado a paz de sua nudez. Despido e ciente desta condição, o homem terá encontrado a tão esperada imortalidade da alma. Esta imortalidade, produzida a partir da imoralidade, se revelará a árvore da vida. Todo chão pisado será um terreno seco em meio ao mar e todo corpo será uma ponte até um novo corpo. A transgressão terá sido a trajetória humana rumo à transcendência na história — seu longo curto caminho.



Nilton Bonder  |  “A Alma Imoral” (Rocco, 1998, pp. 127-131)


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