Posted by: Jussara


Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza às escuras – e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos!

Até que tudo se transformou em “não“. Tudo se transformou em “não” quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.”

(Clarice Lispector)


Abençoados aqueles que tiveram a sorte de serem felizes no amor. Eles existem apesar de serem raros e difíceis de encontrar. Meus pais tiveram essa “sorte”… infelizmente. Não para eles, claro, mas para os filhos. Esse “amor que deu certo” pode ter significado uma infância feliz, uma família unida, mas também trouxe consigo uma impossibilidade: encontrar a mesma sorte. Afinal, um raio não cai duas vezes sobre o mesmo teto, diz um ditado popular, que dirá três…


[…] desilusão de quê? Se, sem ao menos sentir, eu mal devia estar tolerando minha organização apenas construída? Talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto, se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. O medo agora é que meu novo modo não faça sentido? Mas por que não me deixo guiar pelo que for acontecendo? Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.

(Clarice Lispector)

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Nem pela probabilidade… em matéria de sentimentos, ela não serve de nada. Fica-se apenas com o acaso.
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O amor romântico é como um traje que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formámos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o príncipio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida.

(Fernando Pessoa)
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Pessoa dificilmente estava errado quando escrevia sobre amor. Acertou de novo, como esperado. Conheço algumas pessoas que “mudam de traje” com uma facilidade e uma velocidade espantosas, alguns de um dia para o outro praticamente. Invejo-os, no fundo, apesar de me horrorizar. Queria ser como eles, pois são mais “felizes” do que os demais (ainda que a felicidade seja falsa, ao menos “funciona”).
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Clarice me comove, na maioria das vezes me surpreende e, de vez em quando, me assusta. Parece conseguir ler minha alma! Essa capacidade tem cara de “assinatura” de um grande talento (não que eu ache que ninguém sabe disso). Mas pode ser que seja também coragem e honestidade crua a respeito das próprias dores, dos pequenos e grandes problemas… E, nesse departamento, compartilhamos mais do que desejariamos ou estamos dispostos a admitir.

 

Não posso escrever enquanto estou ansiosa ou espero soluções porque em tais períodos faço tudo para que as horas passem; e escrever é prolongar o tempo, é dividí-lo em partículas de segundos, dando a cada uma delas uma vida insubstituível.” (Clarice Lispector)


Hoje o nome dela soa até como um adjetivo. Não podia ser mais certeira… estou assim mesmo, querendo que as horas passem. Um dia lindo de sol, cheio de risos e conversas animadas, apesar do trabalho, termina sempre meio tristinho quando acaba neste silêncio de um só habitante.


 

A trilha sonora agora é esta aqui: The Greatest (videoclipe: My Bkuberry Nights soundtrack), cantada por Cat Power …Infelizmente não consigo colocar o videoclipe do filme aqui porque o “dono” não permite… só assistindo no youtube mesmo. Coloquei então a Cat cantando ao vivo no Jools Holand…

 


Amo demais esta música! Nunca achei que diria isso, mas se há uma música que possa me “definir” em algum sentido, mesmo que vago, é esta. A minha cara, definitivamente (com clipe e tudo…rsrs… esse filme de Wong Kar Wai tem um dos beijos mais bonitos do cinema atual, na minha opinião).

Não acho que há alguém me “ouvindo” agora, fora a Carol. Mas aí vai: BOA NOITE e bom fim de domingo!

Beijo Carolita. Amo-te, minha amiga… Juju

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Lyrics for ‘The Greatest”

Once I wanted to be the greatest
No wind or waterfall could stop me
And then came the rush of the flood
The stars at night turned you to dust

Melt me down
To big black armour
Leave no trace
Of grace
Just in your honor
Lower me down
That corporate slob
Make a watch
For a space in town
For the lack of the dreds
Of my bed I’ve been sleeping
Lower me down
Pin me in
Secure the grounds

For the later parade

Once I wanted to be the greatest
Two fists of solid rock
When things I couldn’t explain
Any feelings
Lower me down
Pin me in
Secure the grounds
For the lack of the drugs
My faith had been sleeping
For the later parade

Once I wanted to be the greatest
No wind or water fall could stop me
And then came the rush of the flood
The stars at night turned you to dust

(Carol – 15h30)

 

Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes… tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos. Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer: – E daí? Eu adoro voar!

(Clarice Lispector)


Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença.

Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda.

Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector




Estes poemas são resultado do arranjo em versos, feito pelo padre Antônio Damázio, de textos em prosa da escritora Clarice Lispector, segundo a informação obtida no blog sobre escritora.  


Nossa Truculência

Quando penso na alegria voraz
com que comemos galinha ao molho pardo,
dou-me conta de nossa truculência.
Eu, que seria incapaz de matar uma galinha,
tanto gosto delas vivas
mexendo o pescoço feio
e procurando minhocas.
Deveríamos não comê-las e ao seu sangue?
Nunca.
Nós somos canibais,
é preciso não esquecer.
E respeitar a violência que temos.
E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo,
comeríamos gente com seu sangue.

Minha falta de coragem de matar uma galinha
e, no entanto, comê-la morta
me confunde, espanta-me,
mas aceito.
A nossa vida é truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se a união
que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também.

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Mas há a vida

Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.

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