Pinturas de Fabian Perez

Pinturas de Fabian Perez


… junto a um copo de whisky no aeroporto, digamos, em Minneapolis.


Meus ouvidos ouvem cada vez menos das conversas, meus olhos vão ficando mais fracos, mas não se fartaram.

Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas ou tecidos voláteis,

Observo uma a uma, suas bundas e coxas, pensativo, acalentado por sonhos pornô.

Velho depravado, é a cova que te espera, não os jogos e folguedos da juventude.

Não é verdade, faço apenas o que sempre fiz, compondo cenas dessa terra sob as ordens de uma imaginação erótica.

Não desejo a estas criaturas, desejo tudo, e elas são como o signo de uma convivência extática.

Não é minha culpa se somos feitos assim, metade contemplação desinteressada, e metade apetite.

Se após a morte eu chegar ao Céu, lá deve ser como aqui, só que me terei desfeito da obtusidade dos sentidos e do peso dos ossos.

Tornado puro olhar, sorverei ainda as proporções do corpo humano, a cor da íris, uma rua de Paris em junho de manhãzinha, toda a incompreensível, a incompreensível multidão das coisas visíveis.


Czesław Miłosz  |  “Não Mais”  (Coleção Poetas do Mundo. Editora UNB, 2003, pp. 113-115)


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Posted by: Jussara


Tomber amoureux. To fall in love. Does it occur suddenly or gradually? If gradually, when is the moment “already”?

I would fall in love with a monkey made of rags. With a plywood squirrel. With a botanical atlas. With an oriole. With a ferret. With a marten in a picture. With the forest one sees to the right when riding in a cart to Jaszuny. With a poem by a little-known poet. With human beings whose names still move me. And always the object of love was enveloped in erotic fantasy or was submitted, as in Stendhal, to a “crystallization,” so it is frightful to think of that object as it was, naked among the naked things, and of the fairy tales about it one invents.

Yes, I was often in love with something or someone. Yet falling in love is not the same as being able to love. That is something different.

Czesław Miłosz

(Source: growing-orbits)


Posted by: Jussara


A hipótese da ressurreição,
Que um cientista deduziu da mecânica quântica,
Prevê o retorno aos lugares e pessoas de que gostamos
Em um ou dois bilhões de anos terrenos
(O que no além-do-tempo é igual a um instante).
Estou contente por estar vivo quando se cumpre a profecia
Sobre a possível aliança entre a ciência e a religião,
Preparada por Einstein, Planck e Bohr.
Não levo muito a sério as fantasias científicas,
Embora respeite as fórmulas e gráficos.
Pedro Apóstolo foi mais conciso
Dizendo: A p o k a t a s t a s i s   p a n t o n,
A renovação de todas as coisas.
Porém isso ajuda: poder imaginar
Que cada um de nós, em vez da vida, tem um código
Guardado em um depósito para a eternidade,
………………………………….. o supercomputador do universo.
Nós demanchamos em podridão, cinzas e microadubo,
Mas aquela cifra, ou seja, a essência, permanece
E espera, até que por fim se reveste de corpo.
E se esta nova corporeidade
Precisa ser lavada do mal e da doença,
A ideia do Purgatório também entra na equação.
Não é outra coisa que os fiéis numa igreja de aldeia
Repetem em coro, pedindo a vida eterna.
E eu com eles. Sem entender
Quem serei, quando acordar depois da penitência.

(Czesław Miłosz)

………

Posted by: Jussara (21h00)

………

Depois de uma longa conversa do poeta polonês Czesław Miłosz — um dos poetas mais “queridos” para mim — com o filósofo e escritor hindu Raja Rao, Czesław envia uma carta ao hindu com um poema no final. Escrito originalmente em inglês, ele depois o reescreveu em polonês e abaixo vai a tradução para o português.


Rajá, se eu soubesse
a causa dessa doença.

Por longos anos não me conformei ao
lugar em que estava.
Tinha a impressão de que deveria
estar alhures.

À cidade, às árvores, vozes humanas
faltava o que chamamos de presença.
Vivia da esperança de ir embora.

Alhures havia uma cidade verdadeiramente presente,
uma cidade de verdadeiras árvores e vozes,
amizades e amores.

Associa, se quiseres, esse meu caso
no limite da esquizofrenia
ao sonho messiânico
de minha civilização.

Sofrendo na tirania, sofrendo na república,
ali queria salvar a liberdade, aqui dar cabo da podridão.
Erigindo na mente cidades eternas
donde para sempre desapareceria a desatinada azáfama.

Aprendi afinal a dizer: aqui é minha casa,
aqui, frente ao carvão em brasa dos crepúsculos oceânicos,
nessa margem que se inclina para as margens da tua Ásia,
numa grande república, comedidamente podre.

Isso não me curou todavia
do sentimento de culpa e vergonha.
Vergonha, porque não me tornei
quem deveria ter sido.

A imagem de mim mesmo
se agiganta na parede
e diante dela
que mísera minha sombra.

Eis então que acreditei
no Pecado Original,
que não é nada mais
do que a primeira vitória do ego.

Paralisado por meu ego,
perseguindo suas miragens,
dou a ti, como vês,
um ótimo argumento.

Ouço o que dizes agora,
que a libertação é possível
e a sabedoria socrática
e a sabedoria do teu guru
são um e o mesmo.

Não, Rajá, preciso começar do que sou.
Sou esses monstros que me visitam em sonhos
e revelam
minha encoberta essência.

Se estou doente, falta no entanto uma prova
de que o homem pode se considerar são.
A Grécia tinha de sucumbir, sua límpida consciência
acabaria apenas aguçando nossa angústia.

Era-nos necessário um Deus que nos amasse em nossa fraqueza,
Não na glória da perfeita unidade.

Debalde, Rajá, a perda é meu quinhão,
o combate, a infâmia, o egoísmo de odiar-se,
a prece pela iminência do Reino —
e os pensamentos de Pascal.

(Czeslaw Milosz – Berkeley, 1969)


Fonte: MILOSZ, Czeslaw. Não Mais. Coleção Poetas do Mundo. Seleção, tradução e introdução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. Brasília: Editora UnB, 2003, p. 74-81

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A Polônia declarou 2011 como o ano de Czeslaw Milosz, devido à sua imensa contribuição literária e poética. Foi criado um site com toda a programação comemorativa ao redor do mundo para celebrar o poeta e sua obra. O site tem versão em polonês, inglês e russo.


Czeslaw Milosz with Helen Vendler, Conversation, March 26 1998