Digo que fomos os que melhor encaramos nossa época e nossas terras inquisitivamente, como um médico a diagnosticar uma doença profunda. Nunca houve, todavia, mais vazio (falsidade?) no coração do que no presente — e aqui nos Estados Unidos. A crença genuína parece ter nos abandonado. Não cremos honestamente nos princípios básicos dos Estados (por todo esse brilho frenético e esses gritos melodramáticos), nem mesmo na própria humanidade. Que olho penetrante não vê, em todos os lugares, através da máscara?

O espetáculo é pavoroso. Vivemos em uma atmosfera de hipocrisia por toda parte. Os homens não acreditam nas mulheres, nem as mulheres nos homens. Uma arrogância desdenhosa dita as regras na literatura. O objetivo de todos os literatos é encontrar algo para ridicularizar. Uma variedade de igrejas, seitas, etc — os fantasmas mais sombrios que conheço — usurpam o nome da religião.

A conversação é uma massa de zombaria. Do engano no espírito, o pai de todas as falsas ações, a prole já é incalculável. Uma pessoa perspicaz e sincera no Departamento da Receita em Washington, que é levada, por conta de seu trabalho, a visitar regularmente muitas cidades ao norte, sul e oeste para investigar fraudes, tem falado muito comigo sobre suas descobertas. A depravação das classes empresariais de nosso país não é menor do que se supunha, mas infinitamente maior. Os serviços oficiais americanos — nacionais, estaduais e municipais — em todas as suas filiais e departamentos, com exceção do Judiciário, estão saturados em corrupção, suborno, falsidade, má administração; e o Judiciário [já] está contaminado. As grandes cidades fedem tanto com o roubo e a patifaria respeitável, quanto com a não-respeitável.

Na vida moderna, frivolidade, amores tépidos, infidelidade débil, objetivos mediocres, ou completa falta de objetivos, apenas para matar o tempo. Nos negócios (esses do mundo moderno que a tudo devoram), o único objetivo é o ganho monetário, por qualquer meio [disponível]. Na fábula, a serpente do mago comeu todas as outras serpentes; e o fazer dinheiro é a nossa serpente do mago, permanecendo hoje em dia como o único mestre em toda esfera de ação.


Walt Whitman  |  Democratic Vistas (1871)

Tradução: Jussara Almeida

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Posted by: Jussara


A Bota

Por Eliane Brum  |  Fonte original: Vida Breve (14/08/2012)

Eram 21h quando ela dormiu pela primeira vez. Lia Uma casa no fim do mundo, de Michael Cunningham, mas a aridez escorria das páginas do livro para dentro dela, como se houvesse um funil invisível derramando letras dentro do seu peito. Doía tanto ali fora como dentro, doía dentro e dentro. Algo esburacava a carne dela, como se formigas fizessem túneis pelo seu interior. Ou cupins. Sim, eram cupins. Em pouco tempo ela seria pó. Ela e o livro.

Sabia o que a esburacava, mas não queria lembrar. A não lembrança, porém, se lembrava dentro dela. Adormeceu cedo demais. Antes da novela, antes de a filha ligar, antes de ele chegar da universidade. Adormeceu em fuga. E a verdade continuou se relembrando dentro, enquanto ela fingia esquecer. Acordou de repente, com uma sensação de peso no estômago. Alguém no sono tinha enfiado um coturno na sua barriga, mas continuava doendo na vigília.

— Ele está com câncer — agora ela lembrava.

E repetiu baixinho.

— Ele está com câncer.

E dormiu de novo, antes das 22h. E de novo o pontapé no estômago.

— Ele está com câncer.

E repetia, sem que as letras fizessem sentido. Poderia estar dizendo xkdguhdytplnm. E seria a mesma coisa.

E dormiu de novo, antes das 22h30.

E de novo a bota enfiada no estômago.

— Ele está com câncer.

Enquanto repetia a frase proibida no escuro, ele chegou da universidade. Ouviu-o urinando no banheiro. Ouviu-o batendo a porta da geladeira, como ele sempre fazia, e ela implicava. (Será que a porta fechou? Se amanhã estiver aberta, degelando… )

Se amanhã, o quê? A bota cutucou mais fundo.

Ouviu-o lavando o rosto e as mãos. Ouviu-o procurando o pijama no escuro. (Por que ele sempre esquecia de que ela o guardava embaixo do travesseiro?) Ouviu-o quando acertou o despertador. E sabia que ele o programara para as seis e quinze (porque queria ter quinze minutos de preguiça antes de se levantar às seis e meia e começar a fazer a barba diante do espelho do banheiro, embaçando tudo com o vapor da água quente da pia). Ouviu-o tentando acordá-la com pequenos ruídos propositais e dissimulados. E fingiu que não tinha uma bota enfiada no estômago.

Quando ele finalmente se deitou, aninhou-se a ele, tentando não pensar que havia um bicho acordado dentro dele, roendo-o. Não podia pensar, não podia olhar pra trás, não podia olhar pra frente. Ao redor deles, ela sentia o apartamento se mexer. Estamos afundando, ela pensou. Então lembrou que não estavam no mar, mas assentados na cidade, onde não havia terremotos. Está tudo bem, ela balbuciou. Está tudo bem.

Agarrou-se às costas dele, tentando abarcar o corpo muito maior dele com seus braços e pernas, com sua barriga e seus seios, com toda ela. E dormiu até o amanhecer de algo que não mais existia.