Por vezes, à beira-mar, no perpétuo movimento das águas e no eterno fugir do vento, sinto o desafio que a eternidade me lança. Pergunto-me, então, o que vem a ser o tempo, e descubro que não passa do consolo que nos resta por não durarmos sempre.

(Stig Dagerman)





Às vezes chegamos a acreditar, no meio deste caminho sem margens, que depois não haverá mais nada; que não se poderá encontrar nada do outro lado, no fim desta planura rachada de gretas e de arroios secos. Mas sim, há algo. Há uma aldeia. Ouvem-se os cães a ladrar e sente-se no ar o cheiro do fumo, e saboreia-se esse cheiro de gente como se fosse uma esperança. Mas a aldeia está ainda muito para lá. É o vento que a aproxima.

(Juan Rulfo)





Tenho um espinho cravado no coração, um espinho que não pára de me causar dor, enquanto me entrego ao trabalho diário, e que me parece nem sequer me dar tréguas quando durmo. Mal desperto, de manhã, vejo que o céu perdeu o fulgor. Que se passa? Que aconteceu?

Meu espírito tornou-se tão sensitivo que até a minha vida passada, que se me apresentara sob o disfarce da felicidade, parece arrancar-me o coração, com a sua falsidade. A vergonha e a mágoa que se aproximam cada vez mais vão perdendo o ar secreto, velado, e perdem-no principalmente porque tentam ocultar o rosto.

O meu coração é todo olhos. Tenho de ver as coisas que não deveriam ser vistas, as coisas que não quero ver.

(Rabindranath Tagore)


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Para ouvir todas as músicas de Ólafur Arnalds em Living Room Songs (2011): AQUI.

Para assistir o programa completo gravado no apartamento de Ólafur: AQUI.

Posted by: Jussara


“As células partiam para o mundo! Eu as via. Eu as via nos olhos fechados, imóveis, em volta deles, nas fendas fundas e escuras, nas rugas, na testa crescida, no nariz, como se tivesse sido destacado, um corpo estranho colado depois, e na barriga inchada, e nem tanto nos cabelos grisalhos, mas na lisura inesperada dos cabelos, a vida deixara os cabelos, eles se tornaram engordurados e grudentos e pendiam sobre a superfície cinza acidentada que chamava de rosto “o anatomista sempre entediado, de aparência triste”. Suas pernas ainda estavam quentes!!!

[…]

Pois então agora, assim, você lá, eu aqui, lá você, aqui eu. Não penso em nada. Aceitei a sua morte em um mutismo imbecilizado. Você morreu, e eu não existo. E assim por diante. Você já não existe, mas é. Você é quem morreu. Você e só você existe, quem morreu. Minhas lágrimas acabaram […]. Às vezes, me espanto de não ter deixado cair um ou outro objeto da minha mão, de tanto que perco a sensibilidade quando, de repente, me lembro de você.

Você não iria gostar desta frase (porque é indelicada e demasiado importante em si): você vem à minha mente, para que eu venha à minha mente. Não existe dor em mim, apenas cansaço, silêncio e um terror crescente. Fissuras; poderíamos chamar a isso tudo de dor. Como de hábito, ouço perguntas equivocadas. Não consigo articular a minha condição. Entre dois gestos acontecem coisas demais, e, nos intervalos, não me leve a mal, é como se meus intestinos vazassem. (Em questões de estilo não vou mais pedir desculpas).

Em um mesmo dia não sou capaz de apreender os acontecimentos do próprio dia. Isto é bem ruim. Não há um lugar onde eu possa estar.

[…]

Na frente da casa, um velho jardineiro trabalhava. Como quem estranhasse, com a cabeça inclinada de lado, observava, mantendo-a à distância, uma planta de raízes emaranhadas, parecia segurar um gatinho pelo pescoço. Para mim, a partir de palavras me ocorrem palavras, e assim por diante. Eu me sinto desenraizad[a] porque sou raíz. […]

E, diante da casa, no parque sombreado, ao ver a planta-animal estranha, morta, na mão velha, pegajosa — vazi[a], cheio[a] de pó, com dor de cabeça, muita!, fora de todos os papéis, do meu papel, que é a naturalidade, não tive saída, a não ser a de tomar consciência, no íntimo, para mim mesm[a], solitári[a]: fiquei orfã.

[…] 

Estou de luto por você. […] No meu luto, serei uma velha, esse será meu sacrifício, não pense que é pouco. Estou de luto por você, quer queira, quer não. Não sou uma qualquer, uma vez que sinto tamanha tristeza. Estou em apuros, assim me consolo, e espreito meu rosto no espelho: como ele surge, inesperado, um pássaro corpulento! Quero ter direitos, quero que me respeitem, tenho um morto! […]

O tempo é uma bela mulher branca, cansada. Recolhe as pernas debaixo da saia de seda rodada. O rosto imóvel estampa uma careta amarga. Alguma coisa aconteceu, portanto, passou. Isso, porém, não é uma certeza. […] Estou aberta, feito uma ferida, estou me lamentando, gemendo. Tão doce, que a qualquer momento poderia me apaixonar. Não é uma visão agradável. Estou deplorável … 

[…] Não estou triste. Nem alegre. Não tenho vontade alguma. Só ficou a dor; apesar de tudo. Sempre a mesma dor, sempre o mesmo medo… e assim nunca fica mais fácil, nunca fica mais difícil. Tudo fica cada vez pior.


NEGAMOS COM VERBOS AUXILIARES.”


Péter Esterházy |  Os Verbos Auxiliares do Coração” (Cosac Naify, 2011)


Posted by: Jussara


“Without Pretense”, by Barbara Cole (Painted Ladies series)


Nunca sofri um acidente de avião, mas já ouvi relatos de sobreviventes. Eles percebem a perda de altitude, a potência enfraquecida das turbinas, o desastre iminente, até que acontece a parada definitiva da aeronave e ouve-se um barulho fora do normal, algo verdadeiramente assustador.

Então, após o estrondo, sobe do chão um silêncio absoluto. Por alguns segundo, ninguém fala, ninguém se move. Todos em choque. Não se sabe o que aconteceu, mas sabe-se que é grave. Alguma coisa que existia não existe mais.

É a quietude amortizante de quem não respira, não pensa, não sente nada ainda.

Só então, depois desse vácuo de existência, desse breve período em que ninguém tem certeza se está vivo ou morto, começam a surgir os primeiros movimentos, os primeiros gemidos, uma sinfonia de lamentos que dará início ao que está por vir: o depois.

[…] eu sabia que era uma viagem sem destino, sabia desde o início e não sabia, não sabia que doeria tanto, que era tanto, que era muito mais do que se pode saber, […]

Não sei se as pessoas choram de forma diferente umas das outras, eu choro contraída, como se alguém estivesse perfurando minha alma com uma lâmina enferrujada, choro como quem implora, pare, não posso mais suportar, mas o insuportável é uma medida que nunca tem limite, eu chorei no domingo, na segunda, na terça, em várias partes do dia e da noite, um choro de quem pede clemência, de quem está sendo confrontado com a morte, eu estava abandonando uma vida que não teria mais, eu sofria minha própria despedida, morte e parto, eu tinha que renascer e não queria, não quero, sinto que caí num vácuo, perdi a parte boa da minha história, e não quero outra, enquanto choro penso que se alguém me visse chorar dessa maneira me salvaria, prestaria socorro, chamaria uma ambulância, eu nunca vi você chorar, […].

Martha Medeiros  |  “Fora de Mim”


Posted by: CAROL

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Para ti, amiga querida. Não te desesperes com essa “ausência”. É só aparente. Precisas dela um pouco agora, para te proteger e sustentar. Beijo saudoso, 

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Photographer: Savanah Jane (Flickr)  —  At least, I think it’s her. Sorry if I’m wrong.

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A Dor como Padrão para a Intensidade dos Sentidos

Normalmente, a ausência de dor é apenas a condição física necessária para que o indivíduo sinta o mundo; somente quando o corpo não está irritado, e devido à irritação voltado para dentro de si mesmo, podem os sentidos do corpo funcionar normalmente e receber o que lhes é oferecido.

A ausência de dor geralmente só é «sentida» no breve intervalo entre a dor e a não-dor; mas a sensação que corresponde ao conceito de felicidade do sensualista é a libertação da dor, e não a sua ausência. A intensidade de tal sensação é indubitável; na verdade, só a sensação da própria dor pode igualá-la.

Hannah Arendt  |  “A Condição Humana

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Posted by: CAROL


Para você, Juju. Acho que vai curtir esse trecho. Conhece o livro? Eu não conhecia… Beijo,


Talvez seu corpo seja percorrido por ondas de calor, mas também podem ser de frio, e talvez você comece a suar. A catástrofe de estar presente no mundo, isolada dos outros, destacada de algum fluxo original onde tudo transcorre sem atrito nem perito se torna a única verdade total. Passa a ser uma sensação que obscurece todas as outras, chega ao ponto de tornar-se um objeto, uma garra gelada e desumana que aperta e torce seu estômago, um monólito que esmaga seu peito. Você gostaria de retornar agora mesmo para esse fluxo original, se convence de que é a única maneira de terminar o sofrimento, mas não há como acessá-lo sem aniquilar-se, portanto você fica paradinha no lugar, aguentando. Vale a pena aguentar? Você tem dúvidas. Quer acreditar que sim, mas entregar-se parece ser apenas questão de tempo. Talvez você sinta dor. Uma pontada persistente naquele pedacinho do tórax em que numerosos órgãos vitais se avizinham. Você ouve sua respiração e se dá conta de que está arfando numa cadência assustadora, inalando ar ruidosamente numa atmosfera rarefeita. Soca o chão ou a cama ou a superfície que estiver mais próxima e entrega-se a um choro convulsivo na esperança de que os impactos, as lágrimas e a tosse levem embora a certeza da morte que ronda. É como se sua energia vital escoasse pelos olhos e narinas. Talvez você sinta que vai morrer ali mesmo, talvez queira morrer ali mesmo, talvez as duas coisas. Você é tragada pelo buraco e não fará ideia alguma de quanto tempo passou quando finalmente estiver deitada da forma mais inerte, esvaziada de tudo exceto um resíduo final de horror, com a respiração agora excepcionalmente lenta e uma perspectiva amarga do restante de vida que ainda tem pela frente.

Seu corpo segue sendo um veículo tosco para sua consciência estupefata. Nada mudou.”

Daniel Galera 

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Do livro “Cordilheira” (Companhia das Letras, 2008, 176 pgs)

Fonte da citação: VBlog (Na época em que postamos a citação acima, este blog era aberto para leitura, agora não é mais, infelizmente… Uma pena. Mas mantenho o link aqui, já que foi dele que tirei a citação)

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