John Keats pintado por Benjamin Robert Haydon 




A alcunha comum deste mundo entre os equivocados e supersticiosos é “um vale de lágrimas”, do qual seremos redimidos por uma certa intervenção arbitrária de Deus, e levados ao céu. Que noção circunscrita e arranjada! Chamem o mundo, se assim desejarem, de “o vale da edificação das almas”. Então vocês descobrirão para que serve o mundo (agora estou falando nos mais elevados termos para a natureza humana, admitindo-se que ela seja imortal, o que eu vou tomar aqui como certo com o propósito de apresentar um pensamento que me ocorreu a respeito dela). Digo “edificação das almas”, alma como algo distinto da inteligência. Pode haver inteligências ou centelhas da divindade aos milhões, mas elas não são almas até que adquiram identidades, até que cada uma seja pessoalmente ela mesma. Inteligências são átomos de percepção, elas sabem e vêem e são puras, em resumo, elas são Deus. Como, então, elas são almas a serem criadas? Como, então, essas centelhas que são Deus podem receber uma identidade, de modo a possuírem para sempre uma bem-aventurança [que é] peculiar à existência individual de cada uma delas? Como, a não ser por meio de um mundo como este?

Desejo sinceramente considerar este ponto, porque penso que é um sistema de salvação maior que a religião cristã — ou melhor, é um sistema de criação do Espírito. Isso se realiza através de três grandes materiais agindo um sobre o outro por uma série de anos. Esses materiais são a Inteligência — o coração humano (distinguido da inteligência ou Mente) — e o mundo ou espaço elementar adequado para a ação da mente e do coração, um sobre o outro, com o propósito de formar a alma ou inteligência [que está] destinada a possuir o sentido de identidade. Mal posso expressar o que vagamente percebo — e, ainda assim, penso que o percebo –, o que você poderá julgar, quanto mais claramente o colocar, de forma mais simples possível. Chamarei o mundo de uma escola, instituida com o objetivo de ensinar crianças pequenas a ler. Chamarei a criança capaz de ler de alma, criada por essa escola e sua cartilha. Você não vê o quão necessário é um mundo de dores e dificuldades para ensinar uma inteligência e torná-la uma alma? Um lugar onde o coração deve sentir e sofrer de mil maneiras diferentes!

O coração não é apenas uma cartilha, é a bíblia da mente, a experiência da mente; é a teta da qual a mente ou inteligência suga sua identidade — tão variadas quanto as vidas dos homens, tão variadas tornam-se suas almas e, assim, Deus cria seres individuais, almas, almas idênticas [a partir] das centelhas de sua própria essência…


John Keats  (em carta para seu irmão George, 21 de abril de 1810)

Tradução: Jussara Almeida


>> Para mais trechos de cartas de Keats, com comentário (em inglês).


Anúncios