Posted by: Jussara

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Sabe a idéia que me veio agora mesmo? Que daqui em diante já não falo mais nele, mas de coisas comuns… Já há muito que tinha pensado nisso.

Explique-me: por que não havemos todos de ser como irmãos uns para os outros? Por que motivo, quando nos encontramos diante de outra pessoa, mesmo que ela seja a melhor do mundo, havemos sempre de esconder e de calar algo? Por que não havemos nós todos de dizer com a absoluta sinceridade aquilo que trazemos no coração, quando sabemos muito bem que as nossas palavras não seriam em vão? Parecemos todos mais frios e taciturnos do que somos na verdade; pode-se dizer que as pessoas têm medo de se comprometer expondo com fraqueza os sentimentos.

Dostoiévski  |  Noites Brancas

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Posted by: Jussara


Ele [Ivan Karamázov] declarou em tom solene que em toda a face da Terra não existe absolutamente nada que obrigue os homens a amarem seus semelhantes, que essa lei da natureza, que reza que o homem ame a humanidade, não existe em absoluto e que, se até hoje existiu o amor na Terra, este não se deveu a lei natural, mas tão-só ao fato de que os homens acreditavam na própria imortalidade. Ivan Fiodorovitch acrescentou […] que é nisso que consiste toda a lei natural, de sorte que, destruindo-se nos homens a fé em sua imortalidade, neles se exaure de imediato não só o amor como também toda e qualquer força para que continue a vida no mundo. E mais: então não haverá mais nada amoral, tudo será permitido, até a antropofagia. Mas isso ainda é pouco, ele concluiu afirmando que, para cada indivíduo particular, por exemplo, como nós aqui, que não acredita em Deus nem na própria imortalidade, a lei moral da natureza deve ser imediatamente convertida no oposto total da lei religiosa anterior, e que o egoísmo, chegando até ao crime, não só deve ser permitido ao homem, mas até mesmo reconhecido como a saída indispensável, a mais racional e quase a mais nobre…

Dostoiévski  |  “Irmãos Karamázov” (pp. 109-110)




Yul Brynner (ou Yuli Borisovich Bryner) interpretou Dimitri Karamazov para uma das versões cinematográficas mais conhecidas de “Os Irmãos Karamazov” (1958). Por causa desse filme, e especialmente desse ator, desejei ler o livro de Fyodor Dostoevsky aos 9 anos de idade, quando o vi na coleção de clássicos da minha mãe. Aliás, assisti ao filme em sua companhia e ela adorava essa estória (adora até hoje). Lembro bem de me esticar toda para alcançar o livro. Claro que só acabei lendo-o mais ou menos uns 8 anos depois, quando comecei a encontrar pessoas que adoravam o escritor russo. Um fato interessante esse: uma sucessão de admiradores de Dostoevsky apareceram em meu caminho, dentre eles alguém com quem convivi por muitos anos… Hoje o escritor russo é um dos meus favoritos (não por conta dessas pessoas, necessariamente).

Foi mesmo Yul Brynner quem me cativou pela primeira vez. Sentia uma imensa atração por esse ator quando criança e sua imagem, assim completamente sem cabelos, ainda me provoca uma estranha sensação de familiaridade e afeição para a qual não tenho nenhuma explicação plausível…rsrs… Não gostava de carecas quando era criança! Mas realmente ADORAVA ver esse ator na TV. Se não fosse esse olhar intenso e essa vestimenta russa (sempre adorei a camisa branca e as botas), talvez levasse um bom tempo para notar o livro na estante da minha mãe….rsrs… pois é, um tanto bizarro, mas foi isso mesmo…  😉



Posted by: Jussara


Um prisioneiro é obediente e passivo até certa medida, mas há um limite que não pode ser ultrapassado. Um homem suporta frequentemente anos e anos de castigos terríveis, até que um dia, sem mais nem menos, se enfurece por uma besteira qualquer. Alguns consideram que tais reações constituem o sinal evidente de que a insânia tomou conta do comportamento. Já disse que ao longo de muitos anos jamais testemunhei entre tais homens qualquer indício de remorso; pelo contrário, a maioria considerava ter agido certo no passado. (…) quem será capaz de penetrar o íntimo de tais almas para descobrir o que está oculto em seus mundos? Mas eu teria percebido, ao longo de tantos anos, algum sinal de desespero ou arrependimento, ainda que passageiro. Naturalmente, parece que cada crime não pode ser analisado de um único ponto de vista, posto que a filosofia do criminoso seja mais complexa do que podemos supor. Os presídios, mesmo os com trabalhos forçados, não conseguem reabilitar o sentenciado; são locais voltados exclusivamente para o castigo, garantido, em termos teóricos, que o criminoso, encarcerado, não cometa outros atentados à paz social. A prisão e todas as formas de trabalho pesado desenvolvem apenas o desejo pelos prazeres proibidos, bem como uma terrível irresponsabilidade. Estou convencido de que o tão propalado regime de penitenciária oferece resultados falsos, decepcionantes, ilusórios. Esgota a capacidade humana, definha o espírito e, depois, apresenta aquele detento mumificado como um modelo de regeneração. Na verdade, ao revoltar-se contra a sociedade, esse criminoso a rejeita abertamente, considerando-se absolutamente inocente. Ou então acredita que, como está cumprido o castigo, já acertou suas contas com a sociedade. Entretanto, não obstante o ponto de vista, há certos atos que todos consideram crime, desde a origem do mundo, e essa visão permanecerá enquanto o homem for homem.


Dostoiévski  |  Recordações da Casa dos Mortos”  (pp. 25 e 26)


A sociedade despreza o carrasco profissional, mas não o nobre torturador. Apenas recentemente expressaram o contrário, ainda que somente em livros e de maneira abstrata. Mesmo os que se manifestaram ainda não conseguiram sufocar o seu desejo por poder. Todo industrial, todo empresário, sente uma dose de prazer pelo fato de seus operários e respectivas famílias dependerem apenas dele. Deve ser assim: as pessoas não esquecem de uma hora para outra o que herdaram; não se desprendem com facilidade do que receberam hereditariamente, aquilo que sugaram com o leite materno; não existem transformações súbitas. Não basta reconhecer sua culpa, seus pecados originais, é preciso se livrar deles. E isso não se consegue de um dia para outro.


Dostoiévski  |  Recordações da Casa dos Mortos” (p. 210)


Posted by: Jussara (00h30)



Como ferve o coração!

Parece que domina a vontade de verter

todo o nosso coração

e todo o nosso corpo

no coração e corpo do outro…

(Fiodor Dostoievski)


(Jussara – segunda, 18h00)

É bom lembrar disso SEMPRE… Lembrar da própria insignificância deveria ser como remédio para doença crônica, tomado TODOS os dias!


Dostoiévski é sempre essencial. Para mim, uma de suas descobertas capitais é que, ao contrário do que diz nossa miserável ciência da autoestima, apenas quando encaramos o mal em nós é que recuperamos a vontade de viver. Só esmagando o orgulho com a humildade de quem se sabe insignificante é que vale a pena apostar no dia a dia.

(Luiz Felipe Pondé, em entrevista para o Jornal da Orla, 12/12/2010)