Hoje se diz que o luxo é o estímulo mais forte para os pobres, para os flagelados pelo trabalho e para os casados: por causa dele, aspiram à riqueza. Hostiliza-se a satisfação e a filosofia idílica com danos à riqueza e à força de trabalho da nação. Tanta riqueza quanto possível, tanta inveja e desprazer quanto possível, tanta concorrência quanto possível! Em Estados ricos, as artes teriam sido fomentadas da melhor maneira por meio de pessoas luxuosas; a arte como um meio para despertar a inveja dos inferiores, como um fragmento de luxo. Por outro lado, sua irrupção no luxo deve ser uma apologia do luxo e da intenção de insatisfação. As artes acalmam e anestesiam transitoriamente o desprazer de tais estados, em todo caso o enaltecem.


Friedrich Nietzsche
(Sabedoria para depois de amanhã, fragmento 11[180], outubro de 1881)



Ilustração de Allison Kunath (modificada)


Pensamento fundamental da cultura do comércio: a massa inferior, com sua pequena posse, torna-se insatisfeita ao olhar o rico; ela acredita que este é o homem feliz. A massa ativa de escravos, que trabalha em excesso e raramente descansa, acredita que o homem sem trabalho físico é que é feliz (por exemplo, o monge — é por isso que os escravos tornaram-se monges de bom grado). O homem flagelado pela cobiça e raramente livre acredita que o erudito, o contemplativo e o religioso é que são homens felizes. O nervoso e entusiasmado acredita que o homem de uma única grande paixão seja o feliz. O homem que nunca conheceu nenhuma distinção crê que o mais honrado seja o feliz. O que se possui raramente e em pouca quantidade é o que provoca na fantasia das pessoas a imagem do feliz, e não o que lhes falta. A falta produz a indiferença em relação ao oposto da falta.


Friedrich Nietzsche
(Sabedoria para depois de amanhã, fragmento 11[246], outubro de 1881)


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