Vomitar lava a alma, pensou ao sair andando. Caminhava com todo o corpo, que agora estava leve, desenvolto numa esperança atlética. Você está cheio de veneno, fermentando em cada quisto, cada buraco e cada glândula das suas entranhas, você está um verdadeiro pântano, e então o milagre da náusea, shluf! E você está vazio, livre, começando outra vez uma nova segunda chance, obrigado, obrigado.

Os edifícios, portarias, fendas na calçada e árvores da cidade reluziam brilhantes e definidos. Ele estava onde estava, inteiro, ao lado de uma lavanderia, louco com o cheiro de roupas limpas embaladas em papel pardo. Não estava mais em nenhum outro lugar. Na vitrine havia um busto antigo de um homem com uma camisa de gesso descascado e uma gravata pintada. Não se lembrou de nada ao olhar para o buso. Sentia-se loucamente feliz por estar onde estava. Limpo e vazio, tinha um lugar onde começar, ali em particular. Podia escolher ir para qualquer lugar, mas não precisava pensar sobre isso porque ali estava ele e cada respiração em liberdade era um começo. Por um segundo viveu numa cidade real, com prefeito e lixeiros e registros estatísticos. Durou um segundo.

Vomitar lava a alma. Breavman se lembrou de como se sentira. Papelaria Fry, comprando material escolar. Dez anos de idade. O ano escolar inteiro se comprimia como um dragão a ser domado por afiados lápis Eagle. Borrachas novas, fileiras de borrachas, clamando pelo sacrifício em nome da pureza e das entrelinhas da nota por Asseio. As pilhas de cadernos incrivelmente vazios de erros, mais perfeitos do que a nota Perfeito exprimia. Compassos intactos, letais, contendo milhões de círculos, afiados e sólidos demais para a caixa de papelão onde eram guardados. Tinteiros adultos, triunfos em preto, erros erradicáveis. Bolsas de couro para a trilha atenta de casa até a classe, liberando os braços para as bolas de neve e ataques de castanhas. Clipes de papel surpreendentemente pesados em sua caixinha, réguas com marcações tão complicadas e importantes quanto o painel de um submarino Spitfire, etiquetas debruadas em vermelho para colar seu nome em qualquer coisa. Tudo eram ferramentas benignas, sem uso. Nada ainda cúmplice do fracasso. A papelaria Fry tinha um cheiro de novo ainda mais novo do que um jornal trazido para dentro de casa no inverno depois de atirado na varanda. E ele comandava todos esses tenentes cintilantes.

Vomitar lava a alma, mas os sucos indesejáveis refluem depressa. Nova York se perdeu na cidade particular de Breavman. Crescia gaze sobre tudo e como de costume precisava imaginar a verdadeira forma das coisas. Já não se sentia leve e olímpico. O busto de gesso pintado lembrou-lhe as estatuetas religiosas numa vitrine há alguns quarteirões para trás. Eram chamativas, plásticas, luminosas, um tanto excessivas. O busto era velho, sujo, de um branco da cor de meias terapêuticas manchadas. Tentou cuspir o gosto da boca. A camisa de gesso, o céu, a calçada, tudo tinha cor de muco. Quem era aquele homem? Por que não conhecia o folclore de Nova York? Por que não se lembrava do artigo sobre as árvores especificamente urbanas, duras, que suportavam o ar poluído?

[…]

Sabia que odiaria o quarto antes de abrir a porta. Estava exatamente igual a quando saíra. Quem era aquele homem? Não quis olhar pela janela e ver onde jaziam o senhor e a senhora Grant, ou o arcanjo Gabriel no topo da igreja Riverside, ou o Hudson brilhantes, alheio e entendiante.

Sentou na cama, segurando com força a chave na mão direita, na mesma posição de quando a girara na fechadura, mordendo a parte interna das bochechas com os molares. Ele não estava exatamente olhando para a cadeira, mas a cadeira era a única imagem que havia em sua mente. Não mexeu um músculo por 45 minutos. Nesse ponto ocorreu-lhe, numa onda de terror, que se não fizesse um grande esforço para se levantar ficaria ali sentado para sempre. A faxineira o encontraria ali congelado.

Lá embaixo na cantina o apressado e diligente funcionário chamou-o de volta para pegar o troco.

“É para mim, professor?”

“Não, Sam, vou precisar.”

“Meu nome é Eddy, professor.”

“Eddy? Muito prazer, Sam.”

Estou enlouquecendo, pensou Breavman. Foi se sentar com os olhos marejados de felicidade por aquela troca trivial. Escolheu uma mesa pequena, deixou as mãos cruzadas sobre a xícara de chá, aproveitando o calor. Foi quando viu Shell pela primeira vez.

Uma sorte fantástica, ela estava sozinha, mas, não, vinha vindo um homem sentar na mesa dela, equilibrando uma xícara em cada mão. Shell se levantou para ajudá-lo. Seios pequenos, adorei as roupas dela, tomar que não esteja indo a parte alguma, rezou Breavman. Espero que se mantenha sentada ali a noite inteira. Reparou que à sua volta, na cantina, todos a olhavam.

Apertou com o polegar e o indicador os cantos dos olhos, cotovelos na mesa — num gesto que sempre achara forçado. O coronel durante a guerra assinando a ordem que manda os rapazes, seus rapazes, numa missão suicida, e então aparece consternado com a lista de baixas, e todas as secretárias já foram embora, ele está sozinho com os mapas alfinetados, e aqui talvez uma montagem com os rapazes durante o treinamento, closes dos rostos jovens.

Agora ele tinha certeza. Foi a primeira coisa em muito tempo que aprendera sobre si mesmo. Não queria comandar legiões. Não queria acenar de pé uma sacada de mármore. Não queria andar com Alexandre, ser um rei menino. Não queria esmagar a cidade com os punhos, liderar judeus, ter visões, amar multidões, ter um sinal na testa, olhar em todos os espelhos, lagos, calotas, para ver o reflexo da marca. Por favor, não. Queria consolo. Queria ser consolado.

Tirou todos os guardanapos do copo, limpou o excesso de tinta da esferográfica com um deles e escreveu nove poemas, certo de que ela ficaria por ali enquanto escrevia. A caneta rasgou os guardanapos, e não conseguiu ler três quartos do que havia escrito; não que fosse bom, mas não tinha nada a ver com isso. Enfiou o resto das folhas no paletó e se levantou. Havia se armado de amuletos.

“Com lincença”, disse ao homem que estava com ela, sem desviar os olhos para ela uma única vez.

“Sim?”

“Com licença.”

“Sim?”

Acho que vou dizer mais dez vezes a mesma coisa.

“Com licença.”

“No que posso ajudar?” Mostrava já certa raiva. O sotaque não era americano.

“Eu poderia — eu gostaria de falar com a pessoa que está com você.” O coração dele batia tão forte que poderia estar transmitindo um código, como o toque de tempo antes do noticiário.

O homem concedeu permissão virando a palma da mão aberta para cima.

“Você é bonita, eu acho.”

“Obrigada.”

Ela não disse isso, mas a boca formou a palavra quando olhou para as mãos compostas na beirada da mesa, como uma menina que acabou de sair da escola.

Então ele foi embora dali, feliz por estar numa cantina e a conta já estar paga. Não a conhecia, mas não tinha a menor dúvida de que daria um jeito de vê-la de novo e conhecê-la.



Leonard Cohen | “A Brincadeira Favorita” (Cosac Naify, 2001, pp. 160-64)


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Mais abaixo, na segunda metade deste post, deixo um capítulo do livro de Leonard Cohen que comecei a ler esta semana. Foi publicado em 1963 e levou quase quarenta anos para chegar ao Brasil em uma bela edição da Cosac Naify, com tradução de Alexandre Barbosa de Souza e projeto gráfico de Gabriela Castro. Dividido em quatro partes, seus capítulos são curtíssimos, rápidos de ler. Ainda não passei da página 40, mas estou gostando muito da história “com tintas autobiográficas” e do estilo fluido desse autor e compositor de origem judaica (lituano-polonesa), nascido no Canadá em 1934.

O pouco que li é suficiente para concordar com Daniel Galera — que escreve o texto de orelha — sobre a aptidão de Cohen para “enfileirar metáforas poderosas e compactas”, compondo “imagens de extraordinária beleza”. Apesar de não ser uma prosa poética, a narrativa demonstra a tão admirada habilidade de Cohen com as palavras, as figuras de linguagem e os detalhes que sempre impregnaram seu incrível trabalho como compositor — alinhando-se à sua poética musical e chegando a ampliá-la, inclusive, como diz Galera. Claro que sempre se perde alguma coisa no processo de tradução, mas o tradutor fez um bom trabalho.

Cohen conta-nos a história de Lawrence Breavman desde a sua infância em uma vizinhança judia de Montreal, atravessando sua juventude e chegando à vida adulta em um doloroso autoexílio em Nova York. Com um pai doente e derrotado, que morre quando ele ainda é criança (assim como Cohen, que perdeu o pai aos 9 anos), Breavman sente um fascínio precoce pelo corpo feminino, que “vai se tornando o eixo de sua existência” e se manifestando sobretudo na relação com a vizinha Lisa. De uma inicial admiração por seus atributos físicos, ele passa “à encenação de brincadeiras lascivas” que vão alimentando o desejo de ambos, impelindo-os em uma busca para descobrir cada vez mais detalhes sobre aquilo que os adultos ocultam “sob nomes franceses, iídiches, soletrando as palavras; aquele ritual velado com base no qual comediantes de casas noturnas constroem a carreira; aquele conhecimento inatingível que as pessoas adultas detêm para garantir sua autoridade“.

Depois do primeiro beijo, Breavman e Lisa voltam para casa não de mãos dadas, mas “esbarrando um no outro”. E planejam um momento a sós onde poderão executar juntos a excitante “brincadeira” dos adultos, que eles finalmente tinham desvendado com a ajuda de um minicine de cartucho, deixado por uma empregada no fundo de uma gaveta. É este momento que o trecho mais abaixo descreve.

A Brincadeira Favorita é um romance sobre as ansiedades da juventude e os sacrifícios exigidos para viver de acordo com as próprias paixões, mas é também uma celebração de nossa capacidade de perceber o mundo. Nos faltam palavras para dar conta de tudo o que percebemos, mas para Leonard Cohen talvez elas faltem menos.” (Daniel Galera)

Perdoem-me a ousadia, mas acho que, se tivesse escrito esse comentário final, teria eliminado o “talvez”. Admiradora que sou do imenso talento poético de Cohen, desde que escutei Suzanne pela primeira vez, tenho quase certeza que a ele não faltam palavras. Principalmente as mais inspiradoras.


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Dos sete aos onze é um grande pedaço da vida, cheio de tédio e esquecimento. Dizem que lentamente vamos perdendo o dom de falar com os bichos, que os pássaros já não visitam nossa janela para conversar. Conforme os olhos vão se acostumando a ver, blindam-se contra a fantasia. Flores que eram do tamanho de um pinheiro voltam para os vasos de barro. Até o terror diminui. Gigantas e gigantes do quarto de infância encolhem-se em professoras chatas e pais piedosos. Breavman havia esquecido tudo o que aprendera com o pequeno corpo de Lisa.

Oh, como a vida deles havia se esvaziado desde o tempo em que engatinhavam sob a cama até se levantarem nas patas de trás!

Agora ansiavam por conhecimento, mas se despir era um pecado. Tornaram-se assim presa fácil de postais, revistas pornográficas, artigos eróticos caseiros trocados no vestiário da escola. Tornaram-se connoisseurs de escultura e pintura. Conheciam todos os livros da biblioteca que traziam as melhores reproduções, as mais reveladoras.

Como seria a aparência dos corpos?

A mãe de Lisa dera de presente à filha um livro a respeito, onde procuraram em vão informações mais diretas. Havia frases como “o templo do corpo humano”, o que podia ser verdade, mas onde estavam os pelos e as reentrâncias? Desejavam imagens claras, não uma página em branco com um ponto no centro e uma legenda desanimadora: “Imagine só! O espermatozóide masculino é mil vezes menor do que isto”.

Sendo assim, usavam roupas leves. Ele tinha uma bermuda verde que ela adorava por ser fina. Ela tinha um vestido amarelo que era o favorito dele. Essa situação deu origem à grande exclamação lírica de Lisa: “Amanhã você põe a sua bermuda verde de seda; eu venho com meu vestido amarelo, assim vai ser melhor.”

A privação é a mãe da poesia.

Ele estava prestes a encomendar pelo correio uma publicação anunciada numa revista de cartas eróticas que prometia a entrega em papel pardo, discreto, quando, duranto uma das buscas periódicas nas gavetas da empregada, encontrou o minicine de cartucho.

Era feito na França e continha pouco mais de meio metro de filme. Você segurava contra a luz, girava um botão e via tudo.

Louvado seja este filme, que desapareceu com a empregada na vastidão da paisagem canadense.

O título estava em inglês, com cativante simplicidade, Trinta Maneiras de Foder. As cenas não se pareciam nada com filmes pornográficos de que Breavman mais tarde teria conhecimento e os quais devoraria, com homens e mulheres acrobáticos encenando enredos forçados e sórdidos.

Cada quadro reluzia de ternura e deleite apaixonado.

Este pequeno trecho de filme, se amplamente exibido nos cinemas canadenses, seria capaz de revitalizar os casamentos tediosos que, dizem, abundam em nosso país.

Onde está você, operária do dispositivo supremo? O National Film Board precisa de você. Envelhecendo em Winnipeg?

O filme terminava com uma demonstração da grandiosa, democrática e universal prática do amor físico. Havia casais indianos, chineses, negros e árabes, todos sem os trajes típicos.

Volta, empregada, em nome do Federalismo Mundial.

Apontavam o minicine para a janela e solenemente o passavam para trás e para frente. Sabiam que seria daquele jeito.

A janela dava para a colina do Murray Park, do outro lado do centro comercial da cidade, rio St. Lawrence abaixo, com as montanhas americanas lá longe. Quando não era sua vez, Breavman olhava a vista. Por que ninguém estava trabalhando?

Havia duas crianças abraçadas numa janela, cuja sabedoria tirava-lhes o fôlego. Não podiam se afobar e fazer aquilo ali naquela hora. Não estavam livres de intrusos. E não era só isso, crianças possuem um sentido altamente desenvolvido de ritual e formalidade. Era importante. Precisavam decidir se estavam mesmo apaixonados. Porque uma coisa as imagens mostravam: era preciso estar amando. Achavam que estavam, mas se dariam uma semana para ter certeza.

Abraçaram-se de novo, no que pensaram ser um dos últimos abraços totalmente vestidos.

Como Breavman poderia se lamentar? Foi a própria Natureza que interveio.

Três dias antes da quinta, dia de folga da empregada, encontraram-se no lugar marcado, o banco ao lado do lago no parque. Lisa estava tímida, mas resolvida a ser direta e franca, como era de seu temperamento.

“Não posso fazer isso com você.”

“Seus pais não vão se mudar?”

“Não é isso. Ontem à noite veio A Regra.”

Ela tocou a mão dele com orgulho.

“Oh.”

“Sabe o que é?”

“Claro.”

Ele não fazia a mais remota ideia.

“Mas mesmo assim seria tudo bem, não?”

“Só que agora eu posso ter neném. A minha mãe me contou ontem à noite. Ela já estava com tudo pronto para mim, toalhas, uma cinta só mina, tudo.”

“Sério?”

Do que ela estava falando? Aquela regra parecia uma intervenção celeste contra o prazer dele.

“Ela me explicou a coisa toda, como no minicine.”

“Você contou sobre o nosso minicine?”

Não se podia confiar em nada, no mundo inteiro, em ninguém.

“Ela jurou que não ia contar para outra pessoa.”

“Era segredo.”

“Não fique triste. A gente conversou bastante. Contei sobre nós também. Sabe, vou precisar me comportar como uma dama agora. As meninas precisam se comportar como mais velhas que os meninos.”

“Quem está triste?”

Ela se reclinou no banco e segurou a mão dele.

“Mas você não está feliz por mim?”, ela riu, “Por ter chegado A Regra? Estou feliz agora!”


(Leonard Cohen, A Brincadeira Favorita. Cosac Naify, 2011, p. 34-37)


Posted by: Jussara

………….

Why Experience Is No Teacher

Not mine — the body you were promised
is buried at the heart
of an unusable machine
no one can stop or start.

You’ll lie with it? You might dig deep —
escape a Law or two — see a dart
of light. You
won’t get near the heart.

I tried — I am the same — come the same.
I wanted my senses to rave.
The dart was ordinary light.
Will nothing keep you here, my love, my love?

Leonard Cohen

from FLOWERS FOR HITLER, 1964  (PDF)

Posted by: CAROL


…Tea and Oranges…


I think you are in a orange mood today, dear friend. And that reminds me (and also the photographer who took the picture above) of Leonard Cohen‘s song:

And she feeds you Tea and Oranges
that come all the way from China

I know you LOVE this song… an AMAZING one, by the way.

It’s sooo good when you have a nice day, isn’t it? I know you had one today!

Go to sleep and dream of oranges and tea (which you love). And be sure I’m always listening to you, Juju…

Kisses and Good Night,

Carol

.

Nick Cave singing Leonard Cohen’s song “Suzanne”

.


And jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said all men will be sailors then
Until the sea shall free them
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe youll trust him
For hes touched your perfect body with his mind.