Posted by: Jussara & Carol

The End


Como era de se esperar, não teve fim de mundo. Mas 2012 não foi um ano qualquer. Muitas pessoas à minha volta sentiram algo parecido com o que senti: que este foi um ano de intensidade única, com uma energia capaz de encerrar etapas. Um ano de despedidas, algumas concretas, outras mais sutis.

Houve quem tenha terminado casos mal resolvidos, quem tenha se conscientizado de um problema que não queria ver, quem se deu conta da fragilidade de uma situação, quem tenha aceitado um desafio que exigiu coragem, quem tenha enfrentado uma situação transformadora, quem tenha se jogado num estilo de vida diferente. Olho para os lados e vejo que 2012 não passou em branco para quase ninguém. Pelo menos não para mim, nem para pessoas próximas.

Meu microcosmo não revela o universo inteiro, lógico. Você talvez não tenha percebido nada de incomum no ano que passou, mas ainda assim seria interessante promover um fim categórico, encerrar o ano colocando uma pedra em algo que não lhe convém mais. Geralmente chegamos ao final de dezembro focados apenas no recomeço, na renovação, nos planos, sem nos darmos conta de que, para que nossas resoluções sejam cumpridas mais adiante, não basta pular sete ondas, comer lentilhas e outras mandingas. É preciso que haja, sim, o fim do mundo. O fim de um mundo seu, particular.

Qual o mundo que você precisa exterminar da sua vida?

Sugestão: o mundo do bullying cibernético. Ninguém é autêntico por esculhambar o trabalho dos outros, sendo agressivo e mal-educado só porque tem a seu favor o anonimato na internet. Perder horas na frente do computador demonstra sua total incapacidade de convívio. Bum! Fim desse mundo estreito.

O mundo da prepotência, aquele que faz você pensar que todos lhe estenderão um tapete vermelho sem você precisar dar nada em troca. Qualquer um pode ser profético quanto a seu futuro: passará o resto da vida achando que ninguém lhe dá o devido valor, isolado em sua torre de marfim.

O mundo obcecado do amor doentio, aquele amor que só persiste pelo medo da solidão, e que de frustração em frustração vai minando sua possibilidade de ser feliz de outro modo.

O mundo das coisas sem importância. Quanta dedicação ao sobrenome do fulano, à conta bancária do sicrano, à vida amorosa da beltrana, o quanto ela pagou, o quanto ele deveu, quem reatou. Por cinco minutos, vá lá. Os neurônios precisam descansar. Mas esse trelelé o dia inteiro, socorro.

O mundo do imobilismo. Do aguardar sem se mover. Da espera passiva pelo momento certo que nunca chega.

2012 prenunciou um cataclismo, só que não era global, e sim individual. Impôs que cada um desse um fim à vida como era antes, e que promovesse uma mudança interna, profunda e renovadora. Feito?

Então que venha um 2013 do outro mundo para todos nós.



Martha Medeiros (Zero Hora, 30/12/2012)  |  Fonte original: Perca Tempo


Anúncios

Posted by: Jussara


O desespero acalmou, virou uma tristeza amistosa que me impede de reagir, me impede de fazer planos, me impede até de sofrer — ela simplesmente me entorpece, imobiliza, é uma espécie de anestesia.

[…] Mas não estou triste, e tampouco alegre, não estou sentindo nada, pode jogar água fervida no meu peito, eu não vou gritar, eu não vou levantar, eu não estou aqui, ninguém está me vendo, eu não estou me vendo.

Martha Medeiros


Watercolor by Ben Tour


Às vezes dura dez minutos, às vezes um pouco mais. Quando dura 15, é carnaval. Fico 15 minutos trabalhando, concentrada, focada em algum assunto que não é você, e então tenho a impressão de que o processo de cura começou, mas os dias possuem bem mais do que 15 minutos, e em todo o resto do tempo é em você que penso, e eu me flagro incrédula, mortificada: faz de conta que não aconteceu, não aconteceu nada, fique calma. Ontem sonhei com você e tive quase certeza de que Deus não existe mesmo, pois Ele, em sua infinita bondade, não faria isso comigo […]. Acordei com uma dor semelhante à de uma agulha enfiada na veia; alguém estava retirando meu sangue, me vampirizando. Você, só podia ser você, que se me visse agora consideraria um exagero esse meu desalinho emocional, que diria que estou dramatizando; você que nunca passou por nada igual, mas talvez passe, tomara que passe, para poder entender. Não há inteligência que nos salve nessa hora, não há explicação, discernimento, só vibrações, as ruins e as péssimas […].


Deus, Pai, Senhor, seja você quem for, tire esse homem do centro das minhas atenções!


[…] eu adoraria te encontrar e te dizer os piores desaforos, te chamar de tudo, berrar os palavrões mais inqualificáveis, abalar teus brios, mas não faço nada disso; agora fico em silêncio tal como você, os dois manipulando um ao outro com a quietude, apostando num desaparecimento que sempre alimenta interrogações. Você tem vontade de me procurar? Quem de nós dois vai resistir mais tempo?

[…] Lembro como era bom compartilhar minha felicidade com os amigos, falar pelos cotovelos sobre alegrias que soavam até ofensivas àqueles que não entendiam o que se passava no interior de um corpo em festa. Eu costumava ser uma alegoria ambulante. Agora a festa terminou, os copos estão espalhados pelo chão, os pratos sujos, silêncio absoluto, ficou o vazio devorador de uma solidão impossível de ser contada. Qualquer coisa que eu fizer será inútil, o fim é uma parede, impossível atravessar, fica-se exatamente onde se está, inerte, até que uma porta, um dia, num passe de mágica, venha a ser desenhada no meu futuro. Mas, por ora, não existe futuro, não existe passado, não existe o tempo, eu olho a chuva pela janela e ela existe lá fora e eu não existo aqui dentro.

O desespero acalmou, virou uma tristeza amistosa que me impede de reagir, me impede de fazer planos, me impede até de sofrer — ela simplesmente me entorpece, imobiliza, é uma espécie de anestesia. Durma, querida. Durma, mesmo acordada. Durma, mesmo trabalhando. Durma e não preste atenção no que está acontecendo. Não está acontecendo nada mesmo.

Peguei meu carro num domingo e fui passar o dia na praia. Me levei embora de mim. Queria ver o mar, foi a desculpa que me dei. Não podia admitir que precisava ouvir uma pessoa estranha me contar o que há do outro lado desse abismo. Queria que alguém me enganasse com a melhor das intenções.

[…] No dia seguinte não choveu. No dia seguinte não chorei. Aceitei que deveria levar dentro de mim o projétil que não havia como retirar, a bala que se alojou num ponto que impossibilitava a extração. Um médico me diria, se eu tivesse procurado um médico, que é preciso se acostumar com esse corpo estranho e levar uma vida normal, como se nunca tivesse sido atingida.

Esse corpo estranho. A dor. Continuo sentindo tudo o que sentia, mas já sem procurar lógica para esse sentimento atrofiante. Sigo triste, mas menos catastrófica. A ansiedade que me empurrava ladeira abaixo deu uma desacelerada, já consigo ficar indiferente. Passei a ir ao cinema com mais frequência e tenho me encontrado com as amigas.


[…] É a pior morte, a do amor. Porque a morte de uma pessoa é o fim estabilizado, é o retorno para o nada, uma definição que ninguém questiona. A morte de um amor, ao contrário, é viva. O rompimento mantém todos respirando: eu, você, a dor, a saudade, a mágoa, o desprezo — tudo segue. E ao mesmo tempo não existe mais o que existia antes. É uma morte experimental: um ensaio para você saber o que significa a morte ainda estando vivo, já que quando morrermos de fato, não saberemos.


Então é isso que começa agora, minha trajetória de morta-viva, com algumas horas mais morta, outras mais viva, dependendo do que me chega, se um convite para uma balada ou uma lembrança corrosiva que abate e me destrói. A cada meia hora, um estado de espírito diferente. À noite, meu cansaço é igual ao de um maratonista, é como se eu tivesse atravessado dezenas de quilômetros, entre subidas e descidas. Mas, ao contrário do que acontece nas atividades físicas, as descidas são as que mais consomem minha energia.

[…] está tudo caótico, mas tudo bem, a paixão é desse modo, eu apenas não estou acostumada, apenas isso, mas vou me acostumar; todo mundo diz que amar desse jeito transtornado é normal.

Não era. [mas parece que assim se tornou…]


Martha Medeiros  |  “Fora de Mim” (Objetiva, 2010, pp. 39-53)


Juju querida, este post é especialmente para ti. Não consegui te tirar da cabeça ontem, e também lembrei muito do Alberto. Acho que ele aprovaria esta mensagem. Tem tudo a ver com uma das últimas coisas que ele te disse. Já fazia algum tempo que o queria postar no blog e agora a oportunidade surgiu.

Deixo também uma saudação à sensação de libertação, ou de grande alívio, que o tema invoca. Porque a prisão do silêncio — do que nunca é dito, das perguntas e dúvidas sem resposta — pode ser sufocante. Não que possamos efetivamente abolí-lo por completo, mas há momentos em que ele deve dar lugar à palavra. A palavra mais do que esperada, necessária! A palavra essencial… 

Now, just breath in and smile graciously, como diria um querido amigo nosso. 😉

Com muitas saudades de todos aí… Beijos!

Carol




Já fui de esconder o que sentia, e sofri com isso. Hoje não escondo nada do que sinto e penso, e às vezes também sofro com isso, mas ao menos não compactuo mais com um tipo de silêncio nocivo: o silêncio que tortura o outro, que confunde, o silêncio a fim de manter o poder num relacionamento.

Assisti ao filme “Mentiras Sinceras” [“Separate Lies“, UK, 2005] com uma pontinha de decepção — os comentários haviam sido ótimos, porém a contenção inglesa do filme me irritou. Nos momentos finais, no entanto, uma cena aparentemente simples redimiu minha frustração. Embaixo de uma guarda-chuva, numa noite fria e molhada, um homem diz para uma mulher o que ela sempre precisou ouvir. E eu pensei: como é fácil libertar alguém de seus fantasmas e, libertando-o, abrir uma possibilidade de tê-lo de volta, mais inteiro.

Falar o que se sente é considerado uma fraqueza. Ao sermos absolutamente sinceros, a vulnerabilidade se instala. Perde-se o mistério que nos veste tão bem, ficamos nus. E não é esse tipo de nudez que nos atrai.

Se a verdade pode parecer perturbadora para quem fala, é extremamente libertadora para quem ouve. É como se uma mão gigantesca varresse num segundo todas as nossas dúvidas. Finalmente, se sabe.

Mas sabe-se o quê? O que todos nós, no fundo, queremos saber: se somos amados.

Tão banal, não? E, no entanto, essa banalidade é fomentadora das maiores carências, de traumas que nos aleijam, nos paralisam e nos afastam das pessoas que nos são mais caras. Por que a dificuldade de dizer para alguém o quanto ela é — ou foi — importante? Dizer não como recurso de sedução, mas como um ato de generosidade, dizer sem esperar nada em troca. Dizer, simplesmente.

A maioria das relações — entre amantes, entre pais e filhos, e mesmo entre amigos — se ampara em mentiras parciais ou verdades pela metade. Pode-se passar anos ao lado de alguém falando coisas inteligentes, citando poemas, esbanjando presença de espírito, sem ter a delicadeza de fazer a aguardada declaração que daria ao outro uma certeza e, com a certeza, a liberdade. Parece que só conseguimos manter as pessoas ao nosso lado se elas não souberem tudo. Ou, ao menos, se não souberem o essencial. E assim, através da manipulação, a relação passa a ficar doentia, inquieta, frágil. Em vez de uma vida a dois, passa-se a ter uma sobrevida a dois.

Deixar o outro inseguro é uma maneira de prendê-lo a nós — e este “a nós” inspira um providencial duplo sentido. Mesmo que ele tente se libertar, estará amarrado aos pontos de interrogação que colecionou. Somos sádicos e avaros ao economizar nossos “eu te perdoo”, “eu te compreendo”. “eu te aceito como és” e o nosso mais profundo “eu te amo” — não o “eu te amo” dito às pressas no final de uma ligação telefônica, por força do hábito, e sim o “eu te amo” que significa: “Seja feliz da maneira que você escolher, meu sentimento permanecerá o mesmo”.

Libertar uma pessoa pode levar menos de um minuto. Oprimi-la é trabalho para uma vida. Mais que as mentiras, o silêncio é que é a verdadeira arma letal das relações humanas.

Martha Medeiros  |  “Falar”, 2 de abril de 2006

(Doidas e Santas. L&PM Editores, pp. 58-59)


Posted by: Jussara


“Without Pretense”, by Barbara Cole (Painted Ladies series)


Nunca sofri um acidente de avião, mas já ouvi relatos de sobreviventes. Eles percebem a perda de altitude, a potência enfraquecida das turbinas, o desastre iminente, até que acontece a parada definitiva da aeronave e ouve-se um barulho fora do normal, algo verdadeiramente assustador.

Então, após o estrondo, sobe do chão um silêncio absoluto. Por alguns segundo, ninguém fala, ninguém se move. Todos em choque. Não se sabe o que aconteceu, mas sabe-se que é grave. Alguma coisa que existia não existe mais.

É a quietude amortizante de quem não respira, não pensa, não sente nada ainda.

Só então, depois desse vácuo de existência, desse breve período em que ninguém tem certeza se está vivo ou morto, começam a surgir os primeiros movimentos, os primeiros gemidos, uma sinfonia de lamentos que dará início ao que está por vir: o depois.

[…] eu sabia que era uma viagem sem destino, sabia desde o início e não sabia, não sabia que doeria tanto, que era tanto, que era muito mais do que se pode saber, […]

Não sei se as pessoas choram de forma diferente umas das outras, eu choro contraída, como se alguém estivesse perfurando minha alma com uma lâmina enferrujada, choro como quem implora, pare, não posso mais suportar, mas o insuportável é uma medida que nunca tem limite, eu chorei no domingo, na segunda, na terça, em várias partes do dia e da noite, um choro de quem pede clemência, de quem está sendo confrontado com a morte, eu estava abandonando uma vida que não teria mais, eu sofria minha própria despedida, morte e parto, eu tinha que renascer e não queria, não quero, sinto que caí num vácuo, perdi a parte boa da minha história, e não quero outra, enquanto choro penso que se alguém me visse chorar dessa maneira me salvaria, prestaria socorro, chamaria uma ambulância, eu nunca vi você chorar, […].

Martha Medeiros  |  “Fora de Mim”