Você sabe o que as pessoas faziam nos velhos tempos, quando tinham segredos que não queriam compartilhar com ninguém? Escalavam uma montanha até encontrar uma árvore, nela cavavam um buraco, sussurravam o segredo dentro dele e depois o cobriam com lama. Dessa forma, ninguém jamais iria descobrir aquele segredo.

Ele lembra daqueles anos desaparecidos. Como se olhasse através de uma vidraça empoeirada… O passado é algo que pode ver, mas não tocar. E tudo o que vê está manchado e indistinto.

(Wong Kar-Wai | In the Mood for Love)



Como Kar-Wai entregou a Chow, e este às ruínas de Angkor Wat, procura também tu um sítio alto, e confia sem temor o teu maior segredo a uma árvore. Quando fizer sombra em tardes estivais, ou te der flores e frutos, para chegares menos sozinho à morte, o teu segredo virá sentar-se silencioso contigo, e pensarão juntos uma mão mais terna para os dedos vorazes da noite.

(Renata Correia Botelho | “Small Song”)


Anúncios

 

O amor e a memória conspiram juntos. É por não nos conseguirmos lembrar de quem amamos que temos de estar sempre junto dela. A olhar para ela. Cada vez que a vejo sou apanhado de surpresa. Baque do costume. Já chateia. É sempre diferente, mais bonita, mais interessante do que eu pensava.

Por que é que eu não me consigo lembrar da cara dela? Já tentei. Já fiz tudo. Fiquei acordado a tentar aprendê-la de cor. Estudei-a. Sobrancelha por sobrancelha. Dez minutos para cada uma. Tomei apontamentos. Escrevi-a num caderno. Tirei-lhe fotografias. Pendurei-a na parede. Decorei o meu quarto (e os interiores do meu coração) com ela, mas mesmo assim não a consigo ver. No momento em que tiro os olhos dela, desaparece. Os meus olhos prendem-se a ela, mas os olhos dela não param dentro de mim. Isto assusta-me. Ela impressiona-me tanto. Mas não deixa impressão. Deixa um vazio. É isso que o amor faz. Troça de nós. Ou se calhar ela é como um bombardeamento que presencio e esqueço. Como um soldado cheio de medo, escondido na minha trincheira, varro-a da memória. E depois ela volta quando começo a sonhar.



Miguel Esteves Cardoso

As Minhas Aventuras na República Portuguesa


Arte: Florian Nicole (Neo)



Recebi este vídeo de uma amiga e compartilho aqui porque achei interessante, levemente esquisito (provocado? intencional?) e, ao mesmo tempo, muito tocante.

O texto que acompanha o vídeo é introdutório:

Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante cinco anos viveram num furgão, realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia para os dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China. Cada um começou a caminhar de um lado [diferente], para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver.

Vinte e três anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse e foi assim…”



Até onde os curadores da exposição, os produtores do vídeo ou as pessoas que trouxeram Ulay ao museu são responsáveis por uma “performance” artística que passou, de repente, a ser muito mais do que isso? Ainda estamos no ambiente que recebe o trabalho artístico e o apresenta ao público, mas o encontro de Marina com esse homem é extremamente pessoal, provocando uma reação que ultrapassa sua performance  — um encontro que é íntimo, embora tão público. Então, o que estamos assistindo exatamente? O que é real nesse momento, além das lágrimas da artista? Foi uma emoção manipulada, ainda que por outros que não Marina, em prol da performance? A manipulação, se existiu, é repreensível, mesmo que a emoção tenha sido real? Entramos no campo do “reality show” agora dentro de um museu? O que importa mais: a emoção que parece real, ou a sensação de que tudo foi manipulado?

As perguntas ficam no ar, assim como as palavras não pronunciadas pelos dois naquele espaço de silêncio e lágrimas que se fez entre eles.


Posted by: Jussara

“Destruction of the Athenian Army in Sicily,” drawn by H. Vogel (19th century)


Um exército conquistador pilha por turnos, poupa os vencidos, reconstrói as cidades, cobra o tributo, restabelece a ordem. Faz seu o subjugado, e como seu o preserva. Desfeito o turbilhão, zelam as patrulhas pela aplicação da norma. Mas, quando passa uma horda, deixa na terra a marca da pura irracionalidade, o restabelecimento do caos original, que faz do engenho ameaça, do labor perversão, da beleza monturo. Assim as colunas quebradas, as termas conspurcadas, os cadáveres esventrados ao claror dos incêndios. Não corre entre eles um único homem capaz de bradar: poupem, que o que aqui está já nos pertence! A salteada demoníaca tudo faz raso, até que a detenham os primeiros ferros duma legião.

Nesta villa trucidaram animais e escravos que ficaram a inchar pelos campos; quebraram as colunas, arrancaram as telhas, desfeitearam os lares; rasparam as velhas pinturas dos interiores; serviram-se de móveis e estofos como lenha; as mesmas mós, de duríssima rocha, britaram. Desenraizaram as árvores, devastaram as vinhas, pisaram as flores. Todos os livros foram esfarrapados ou queimados. Até nesta inofensiva mesa de mármore apuseram as suas marcas bestiais. Porquê? Em nome de quê? Se tal eu soubesse, seria o mais sábio dos homens e poderia aconselhá-los com proveito. O porquê daquela ânsia dementada de destruir deve ser, de todos, o mistério mais bem guardado. Não quis a divindade revelar-mo, apenas que lhe sofresse as consequências.

[…] Poucos vestígios da razia são hoje aparentes. É difícil acreditar que estas casas foram reconstruídas, após terem sido em grande extensão arrasadas. Quando esta geração morrer, não ficará memória das alterações que em dias de desgraça ensanguentaram estas paragens. Restarão talvez anotações em livros, que ninguém lerá, até serem, eles próprios, destruídos, pela crueza do tempo e desatenção dos homens, na melhor das hipóteses.


Mário de Carvalho  |  Um deus passeando pela brisa da tarde

(Companhia das Letras, 1994, pp. 15-16)

Posted by: CAROL

.

llustração: Sarah Watts

.

Encerro também na memória os afectos da minha alma, não da maneira como os sente a própria alma, quando os experimenta, mas de outra muito diferente, segundo o exige a força da memória. 

Não é isto para admirar, tratando-se do corpo: porque o espírito é uma coisa e o corpo é outra. Por isso, se recordo, cheio de gozo, as dores passadas do corpo, não é de admirar. Aqui, porém, o espírito é a memória. Efectivamente, quando confiamos a alguém qualquer negócio, para que se lhe grave na memóra, dizemos-lhe: «vê lá, grava-o bem no teu espírito». E quando nos esquecemos, exclamamos: «não o conservei no espírito», ou então: «escapou-se-me do espírito»; portanto, chamamos espírito à própria memória. 

Sendo assim, porque será que, ao evocar com alegria as minhas tristezas passadas, a alma contém a alegria e a memória a tristeza, de modo que a minha alma se regozija com a alegria que em si tem e a memória se não entristece com a tristeza que em si possui? Será porque não faz parte da alma? Quem se atreverá a afirmá-lo?

Não há dúvida que a memória é como o ventre da alma. A alegria, porém, e a tristeza são o seu alimento, doce ou amargo. Quando tais emoções se confiam à memória, podem ali encerrar-se depois de terem passado, por assim dizer, para esse estômago; mas não podem ter sabor. É ridículo considerar estas coisas como semelhantes. Contudo, também não são inteiramente dissemelhantes. 

Reparai que me apoio na memória, quando afirmo que são quatro as perturbações da alma: o desejo, a alegria, o medo e a tristeza. Qualquer que seja o raciocínio que possa fazer, dividindo cada uma delas pelas espécies dos seus géneros e definindo-as, aí encontro que dizer e declaro-o depois. Mas não me altero com nenhuma daquelas perturbações, quando as relembro com a memória. Ainda antes de eu as recordar e revolver, já lá estavam. Por isso consegui, mediante a lembrança, arrancá-las dali. 

Assim como a comida, graças à digestão, sai do estômago, assim também elas saem do fundo da memória, devido à lembrança. Então, porque é que o que discute, ou aquele que delas se vai recordando, não sente, na boca do pensamento, a doçura da alegria, nem a amargura da tristeza? Porventura nisto é dissemelhante o que não é semelhante em todos os seus aspectos? 

Quem em nós falaria voluntariamente da tristeza e do temor, se fôssemos obrigados a entristecer-nos e a temer, sempre que falamos de tristeza ou temor? Contudo, não os traríamos à conversa se não encontrássemos na nossa memória, não só os sons destas palavras, conforme às imagens gravadas em nós pelos sentimentos corporais, mas também a noção desses mesmos sentimentos. As noções não as alcançamos por nenhuma porta da carne, mas foi o espírito que, pela experiência das próprias emoções, as sentiu e confiou à memória; ou então foi a própria memória que as reteve sem que ninguém lhas entregasse.

Santo Agostinho  |  “Confissões” (tradução portuguesa)

.