Cenas de Amor Pleno (To The Wonder, 2012), de Terrence Malick


Ao mesmo tempo, seu subconsciente se mostrava tão covarde […]. Olhava os muros sujos do pátio e compreendia que não saberia se era histeria ou amor. E, nessa situação em que um verdadeiro homem saberia agir imediatamente, ele se recriminava por negar assim ao mais belo instante de sua vida […] a sua plena significação. Torturava-se com recriminações, mas terminou por se convencer de que era no fundo normal que não soubesse o que queria: nunca se pode saber aquilo que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores.

[…] Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? É isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo “esboço” não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro. [Ele] repete para si mesmo o provérbio alemão “einmal ist keinmat: uma vez não conta, uma vez é nunca. Não poder viver senão uma vida é como não viver nunca.


Milan Kundera | “A Insustentável Leveza do Ser”

(Nova Fronteira, 1986, p. 14)


Posted by: Jussara

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LITOST (a czech word)

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Milan Kundera, author of “The Unbearable Lightness of Being“, remarked that:

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As for the meaning of this word, I have looked in vain in other languages for an equivalent, though I find it difficult to imagine how anyone can understand the human soul without it.”

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The closest definition for it is a state of agony and torment created by the sudden sight of one’s own misery“.

Is there a word for this in english? portuguese? french? I could not find it.

This is one of the things that makes other languages so interesting to me: how some of them can express feelings or states of mind and soul in ways that other languages cannot do. It tells me how other people see human life, what’s so important to them that deserves a WORD to express it.

It is SO fascinating! And now I’m craving to know more about the Czech language…

Where do I look? Tips anyone?  😉

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PS: I’m gonna use this word from now on. It’s perfect!

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Posted by: CAROL………

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Quanto mais vasto o tempo que deixamos para trás, mais irresistível é a voz que nos convida ao retorno. Essa frase parece evidente, e no entanto é falsa. O homem envelhece, seu fim se aproxima, os instantes se tornam cada vez mais preciosos e ele não tem tempo a perder com suas lembranças. É preciso compreender o paradoxo matemático da nostalgia: ela é mais poderosa na primeira juventude, quando o volume da vida passada é inteiramente insignificante.”

Milan Kundera  |  A Ignorância” (p. 64)

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Posted by: CAROL

Fonte da imagem: blog Acerto de Contas

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A maneira como se conta a História contemporânea se parece com um grande concerto em que se apresentariam uma depois da outra as cento e trinta e oito obras de Beethoven, mas tocando apenas os oitos primeiros compassos de cada uma. Se se refizesse o mesmo concerto dez anos depois, não se tocaria, de cada peça, senão a primeira nota, portanto cento e trinta e oito notas, durante o concerto todo, apresentadas como uma única melodia. E, em vinte anos, toda a música de Beethoven se resumiria em uma única nota aguda, que se pareceria com aquela, infinita e muito alta, que ele ouviu no primeiro dia de sua surdez.”

Milan Kundera  |  “A lentidão” (pp. 64-66)

trecho encontrado AQUI

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