Posted by: Jussara


“As células partiam para o mundo! Eu as via. Eu as via nos olhos fechados, imóveis, em volta deles, nas fendas fundas e escuras, nas rugas, na testa crescida, no nariz, como se tivesse sido destacado, um corpo estranho colado depois, e na barriga inchada, e nem tanto nos cabelos grisalhos, mas na lisura inesperada dos cabelos, a vida deixara os cabelos, eles se tornaram engordurados e grudentos e pendiam sobre a superfície cinza acidentada que chamava de rosto “o anatomista sempre entediado, de aparência triste”. Suas pernas ainda estavam quentes!!!

[…]

Pois então agora, assim, você lá, eu aqui, lá você, aqui eu. Não penso em nada. Aceitei a sua morte em um mutismo imbecilizado. Você morreu, e eu não existo. E assim por diante. Você já não existe, mas é. Você é quem morreu. Você e só você existe, quem morreu. Minhas lágrimas acabaram […]. Às vezes, me espanto de não ter deixado cair um ou outro objeto da minha mão, de tanto que perco a sensibilidade quando, de repente, me lembro de você.

Você não iria gostar desta frase (porque é indelicada e demasiado importante em si): você vem à minha mente, para que eu venha à minha mente. Não existe dor em mim, apenas cansaço, silêncio e um terror crescente. Fissuras; poderíamos chamar a isso tudo de dor. Como de hábito, ouço perguntas equivocadas. Não consigo articular a minha condição. Entre dois gestos acontecem coisas demais, e, nos intervalos, não me leve a mal, é como se meus intestinos vazassem. (Em questões de estilo não vou mais pedir desculpas).

Em um mesmo dia não sou capaz de apreender os acontecimentos do próprio dia. Isto é bem ruim. Não há um lugar onde eu possa estar.

[…]

Na frente da casa, um velho jardineiro trabalhava. Como quem estranhasse, com a cabeça inclinada de lado, observava, mantendo-a à distância, uma planta de raízes emaranhadas, parecia segurar um gatinho pelo pescoço. Para mim, a partir de palavras me ocorrem palavras, e assim por diante. Eu me sinto desenraizad[a] porque sou raíz. […]

E, diante da casa, no parque sombreado, ao ver a planta-animal estranha, morta, na mão velha, pegajosa — vazi[a], cheio[a] de pó, com dor de cabeça, muita!, fora de todos os papéis, do meu papel, que é a naturalidade, não tive saída, a não ser a de tomar consciência, no íntimo, para mim mesm[a], solitári[a]: fiquei orfã.

[…] 

Estou de luto por você. […] No meu luto, serei uma velha, esse será meu sacrifício, não pense que é pouco. Estou de luto por você, quer queira, quer não. Não sou uma qualquer, uma vez que sinto tamanha tristeza. Estou em apuros, assim me consolo, e espreito meu rosto no espelho: como ele surge, inesperado, um pássaro corpulento! Quero ter direitos, quero que me respeitem, tenho um morto! […]

O tempo é uma bela mulher branca, cansada. Recolhe as pernas debaixo da saia de seda rodada. O rosto imóvel estampa uma careta amarga. Alguma coisa aconteceu, portanto, passou. Isso, porém, não é uma certeza. […] Estou aberta, feito uma ferida, estou me lamentando, gemendo. Tão doce, que a qualquer momento poderia me apaixonar. Não é uma visão agradável. Estou deplorável … 

[…] Não estou triste. Nem alegre. Não tenho vontade alguma. Só ficou a dor; apesar de tudo. Sempre a mesma dor, sempre o mesmo medo… e assim nunca fica mais fácil, nunca fica mais difícil. Tudo fica cada vez pior.


NEGAMOS COM VERBOS AUXILIARES.”


Péter Esterházy |  Os Verbos Auxiliares do Coração” (Cosac Naify, 2011)


Posted by: Jussara

Foto de Marco Guerra (via Visualize us)


Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
Murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
Precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

Carlos Drummond de Andrade



** Para ouvir o próprio Drummond declamando esta poesia, visite o site dedicado ao poeta.

Watercolor by Ben Tour


Às vezes dura dez minutos, às vezes um pouco mais. Quando dura 15, é carnaval. Fico 15 minutos trabalhando, concentrada, focada em algum assunto que não é você, e então tenho a impressão de que o processo de cura começou, mas os dias possuem bem mais do que 15 minutos, e em todo o resto do tempo é em você que penso, e eu me flagro incrédula, mortificada: faz de conta que não aconteceu, não aconteceu nada, fique calma. Ontem sonhei com você e tive quase certeza de que Deus não existe mesmo, pois Ele, em sua infinita bondade, não faria isso comigo […]. Acordei com uma dor semelhante à de uma agulha enfiada na veia; alguém estava retirando meu sangue, me vampirizando. Você, só podia ser você, que se me visse agora consideraria um exagero esse meu desalinho emocional, que diria que estou dramatizando; você que nunca passou por nada igual, mas talvez passe, tomara que passe, para poder entender. Não há inteligência que nos salve nessa hora, não há explicação, discernimento, só vibrações, as ruins e as péssimas […].


Deus, Pai, Senhor, seja você quem for, tire esse homem do centro das minhas atenções!


[…] eu adoraria te encontrar e te dizer os piores desaforos, te chamar de tudo, berrar os palavrões mais inqualificáveis, abalar teus brios, mas não faço nada disso; agora fico em silêncio tal como você, os dois manipulando um ao outro com a quietude, apostando num desaparecimento que sempre alimenta interrogações. Você tem vontade de me procurar? Quem de nós dois vai resistir mais tempo?

[…] Lembro como era bom compartilhar minha felicidade com os amigos, falar pelos cotovelos sobre alegrias que soavam até ofensivas àqueles que não entendiam o que se passava no interior de um corpo em festa. Eu costumava ser uma alegoria ambulante. Agora a festa terminou, os copos estão espalhados pelo chão, os pratos sujos, silêncio absoluto, ficou o vazio devorador de uma solidão impossível de ser contada. Qualquer coisa que eu fizer será inútil, o fim é uma parede, impossível atravessar, fica-se exatamente onde se está, inerte, até que uma porta, um dia, num passe de mágica, venha a ser desenhada no meu futuro. Mas, por ora, não existe futuro, não existe passado, não existe o tempo, eu olho a chuva pela janela e ela existe lá fora e eu não existo aqui dentro.

O desespero acalmou, virou uma tristeza amistosa que me impede de reagir, me impede de fazer planos, me impede até de sofrer — ela simplesmente me entorpece, imobiliza, é uma espécie de anestesia. Durma, querida. Durma, mesmo acordada. Durma, mesmo trabalhando. Durma e não preste atenção no que está acontecendo. Não está acontecendo nada mesmo.

Peguei meu carro num domingo e fui passar o dia na praia. Me levei embora de mim. Queria ver o mar, foi a desculpa que me dei. Não podia admitir que precisava ouvir uma pessoa estranha me contar o que há do outro lado desse abismo. Queria que alguém me enganasse com a melhor das intenções.

[…] No dia seguinte não choveu. No dia seguinte não chorei. Aceitei que deveria levar dentro de mim o projétil que não havia como retirar, a bala que se alojou num ponto que impossibilitava a extração. Um médico me diria, se eu tivesse procurado um médico, que é preciso se acostumar com esse corpo estranho e levar uma vida normal, como se nunca tivesse sido atingida.

Esse corpo estranho. A dor. Continuo sentindo tudo o que sentia, mas já sem procurar lógica para esse sentimento atrofiante. Sigo triste, mas menos catastrófica. A ansiedade que me empurrava ladeira abaixo deu uma desacelerada, já consigo ficar indiferente. Passei a ir ao cinema com mais frequência e tenho me encontrado com as amigas.


[…] É a pior morte, a do amor. Porque a morte de uma pessoa é o fim estabilizado, é o retorno para o nada, uma definição que ninguém questiona. A morte de um amor, ao contrário, é viva. O rompimento mantém todos respirando: eu, você, a dor, a saudade, a mágoa, o desprezo — tudo segue. E ao mesmo tempo não existe mais o que existia antes. É uma morte experimental: um ensaio para você saber o que significa a morte ainda estando vivo, já que quando morrermos de fato, não saberemos.


Então é isso que começa agora, minha trajetória de morta-viva, com algumas horas mais morta, outras mais viva, dependendo do que me chega, se um convite para uma balada ou uma lembrança corrosiva que abate e me destrói. A cada meia hora, um estado de espírito diferente. À noite, meu cansaço é igual ao de um maratonista, é como se eu tivesse atravessado dezenas de quilômetros, entre subidas e descidas. Mas, ao contrário do que acontece nas atividades físicas, as descidas são as que mais consomem minha energia.

[…] está tudo caótico, mas tudo bem, a paixão é desse modo, eu apenas não estou acostumada, apenas isso, mas vou me acostumar; todo mundo diz que amar desse jeito transtornado é normal.

Não era. [mas parece que assim se tornou…]


Martha Medeiros  |  “Fora de Mim” (Objetiva, 2010, pp. 39-53)

Posted by: Jussara


“Without Pretense”, by Barbara Cole (Painted Ladies series)


Nunca sofri um acidente de avião, mas já ouvi relatos de sobreviventes. Eles percebem a perda de altitude, a potência enfraquecida das turbinas, o desastre iminente, até que acontece a parada definitiva da aeronave e ouve-se um barulho fora do normal, algo verdadeiramente assustador.

Então, após o estrondo, sobe do chão um silêncio absoluto. Por alguns segundo, ninguém fala, ninguém se move. Todos em choque. Não se sabe o que aconteceu, mas sabe-se que é grave. Alguma coisa que existia não existe mais.

É a quietude amortizante de quem não respira, não pensa, não sente nada ainda.

Só então, depois desse vácuo de existência, desse breve período em que ninguém tem certeza se está vivo ou morto, começam a surgir os primeiros movimentos, os primeiros gemidos, uma sinfonia de lamentos que dará início ao que está por vir: o depois.

[…] eu sabia que era uma viagem sem destino, sabia desde o início e não sabia, não sabia que doeria tanto, que era tanto, que era muito mais do que se pode saber, […]

Não sei se as pessoas choram de forma diferente umas das outras, eu choro contraída, como se alguém estivesse perfurando minha alma com uma lâmina enferrujada, choro como quem implora, pare, não posso mais suportar, mas o insuportável é uma medida que nunca tem limite, eu chorei no domingo, na segunda, na terça, em várias partes do dia e da noite, um choro de quem pede clemência, de quem está sendo confrontado com a morte, eu estava abandonando uma vida que não teria mais, eu sofria minha própria despedida, morte e parto, eu tinha que renascer e não queria, não quero, sinto que caí num vácuo, perdi a parte boa da minha história, e não quero outra, enquanto choro penso que se alguém me visse chorar dessa maneira me salvaria, prestaria socorro, chamaria uma ambulância, eu nunca vi você chorar, […].

Martha Medeiros  |  “Fora de Mim”


Posted by: Jussara

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II

Que dor desses calendários
Sumidiços, fatos, datas
O tempo envolto em visgo
Minha cara buscando
Teu rosto reversivo.

Que dor no branco e negro
Desses negativos
Lisura congelada do papel
Fatos roídos
E teus dedos buscando
A carnação da vida.

Que dor de abraços
Que dor de transparência
E gestos nulos
Derretidos retratos
Fotos fitas

Que rolo sinistroso
Nas gavetas.

Que gosto esse do Tempo
De estancar o jorro de umas vidas.

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Hilda Hilst  |  “Cantares de perda e predileção”

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