Posted by: Jussara

Fotos de INEKE KAMPS


Você acha que nunca acontecerá com você, que não pode acontecer com você, que você é a única pessoa no mundo para quem nenhuma dessas coisas jamais acontecerá; e então, uma a uma, todas elas começam a acontecer com você, da mesma forma que acontecem com qualquer outra pessoa.

Seus pés descalços no chão frio, quando sai da cama e caminha até a janela. Você tem seis anos de idade. Lá fora, a neve está caindo, e os galhos das árvores do quintal estão ficando brancos.

Fale agora, antes que seja tarde demais; e então espere continuar falando até que não haja mais nada a ser dito. O tempo está se esgotando, afinal de contas. Talvez seja melhor deixar de lado suas histórias, por enquanto, e tentar examinar como foi viver dentro desse corpo, desde o primeiro dia em que se lembra de estar vivo, até agora. Um catálogo de dados sensoriais. O que se poderia chamar de uma fenomenologia da respiração.



Paul Auster  |  “Winter Journal” (2012)

Tradução: Jussara Almeida



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Posted by: Jussara


Na história de nosso amor, um foi sempre
uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.
O tempo passará por nós, como paisagens
passam por trás de atores parados em suas marcas
quando se roda um filme.
As palavras
passarão por nossos lábios, até as lágrimas
passarão por nossos olhos.
O tempo passará
por cada um em seu lugar.
E na geografia do resto de nossas vidas,
quem será uma ilha e quem uma península,
ficará claro pra cada um de nós no resto de nossas vidas
em noites de amor com outros.

Yehuda Amichai  (tradução: Millor Fernandes)



Posted by: Jussara


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

(Carlos Drummond de Andrade)


Posted by: Jussara

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Ou duram anos… muitos anos! Talvez durem a vida inteira.

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E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos
E por vezes encontramos
de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos

E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

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Posted by: CAROL

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