Posted by: Jussara


O desespero acalmou, virou uma tristeza amistosa que me impede de reagir, me impede de fazer planos, me impede até de sofrer — ela simplesmente me entorpece, imobiliza, é uma espécie de anestesia.

[…] Mas não estou triste, e tampouco alegre, não estou sentindo nada, pode jogar água fervida no meu peito, eu não vou gritar, eu não vou levantar, eu não estou aqui, ninguém está me vendo, eu não estou me vendo.

Martha Medeiros


Posted by: Jussara

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Homens e mulheres, como lobos selvagens, tentando devorar-se uns aos outros a fim de manter o domínio sobre aquilo que pensam possuir. Jogos de espelhos, castelos de areia, baile de máscaras e fantasias… Quantos esforços hercúleos para engolir qualquer um que aparente oferecer a mais ínfima ameaça aos propósitos pessoais de alcançar sucesso e felicidade.

Às vezes, nem isso! Devora-se o próximo em troca de uma vaga no início da “fila” formada por todos os que esperam conseguir migalhas de afeto — e umas noites de sexo — com o “objeto de desejo” do momento. Tragicamente, o excesso de popularidade de uns e outros pode servir de combustível para os pequenos tratores que passam despreocupadamente por cima de quem estiver no meio do caminho.

É uma luta voraz para abocanhar ninharias: a atenção exclusiva de alguém que se julga importante; o primeiro lugar no pódium das paparicações sociais e acadêmicas; o “afeto” de um homem de destaque, ou a “paixonite” e adoração de uma mulher bonita e gostosa. Tudo vale para massagear o ego, alimentar a sensação de valor próprio (conhecida também como auto-estima) e saciar o impulso inesgotável (e egoísta) por se destacar da maioria. Afinal, se a vida não tem sentido algum, nada melhor do que criar sentido em si mesmo, do que passar os dias que levam ao fim derradeiro distraindo-se com o próprio umbigo.

Não importam os custos. Vende-se a própria alma e pisa-se em quaisquer valores, criados para refrear os impulsos “selvagens” de destruição do outro, desde que se acredite em sonhos megalomaníacos e nos próprios desejos ardentes. Puxar tapetes, fazer “esquemas”, criar cortinas de fumaça e enganar descaradamente o “próximo”, com sorrisos e falsas promessas de amizade, tudo isso parece brincadeira de criança perto da habilidade de certos indivíduos para manipular o mundo ao seu redor (tanto coisas como pessoas). A consciência dorme tranquila todas as noites, graças à segurança que o poder de manipulação dá àquele que o possui. E se não conseguir dormir, a indústria farmacêutica resolve o problema — a solução perfeita é concentrada, indolor e rápida.

Assim parece-me o mundo hoje. Cinza, escuro, podre, horrendo… Comparada a isso, a morte tem a estampa de uma modelo de capas da Vogue: atraente e tremendamente sedutora. Infelizmente os impulsos suicidas raramente tem tanta força quanto a prostração e a melancolia que derrubam o corpo na cama por dias a fio.

E viva a evolução biológica que manipulou os genes e dotou alguns indivíduos miseráveis dessa impossibilidade claustrofóbica de fugir do inferno que é a existência. Além de trágica, a “vida” é sádica.

Que triste e sombria realidade.

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O Sacrifício (Título original: Offret – 1986) de Andrey Tarkovskiy


Pandora trouxe o vaso que continha os males e o abriu. Era o presente dos deuses aos homens, exteriormente um presente belo e sedutor, denominado “vaso da felicidade”. E todos os males, seres vivos alados, escaparam voando: desde então vagueiam e prejudicam os homens dia e noite. Um único mal ainda não saíra do recipiente: então, seguindo a vontade de Zeus, Pandora repôs a tampa, e ele permaneceu dentro. O homem tem agora para sempre o vaso da felicidade, e pensa maravilhas do tesouro que nele possui; este se acha à sua disposição: ele o abre quando quer, pois não sabe que Pandora lhe trouxe o recipiente dos males, e para ele o mal que restou é o maior dos bens – é a esperança.

Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos outros males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: ela é na verdade o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens.

Nietzsche  |  Humano, demasiado humano”, aforismo 71.

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Posted by: Jussara

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Imagem de fundo: Kirill Vorontsov

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Posted by: Jussara



Do desassossego e da solidão…

14.

Saber que será má a obra que se não fará nunca. Pior, porém, será a que nunca se fizer. Aquela que se faz, ao menos, fica feita. Será pobre mas existe, como a planta mesquinha no vaso único da minha vizinha aleijada. Essa planta é a alegria dela, e também por vezes a minha. O que escrevo, e que reconheço mau, pode também dar uns momentos de distração de pior a um ou outro espírito magoado ou triste. Tanto me basta, ou não me basta, mas serve de alguma maneira, e assim é toda a vida.

Um tédio que inclui a antecipação só de mais tédio; a pena, já, de amanhã ter pena de ter tido pena hoje — grandes emaranhamentos sem utilidade nem verdade, grandes emaranhamentos…

15. 

Conquistei, palmo a pequeno palmo, o terreno interior que nascera meu. Reclamei, espaço a pequeno espaço, o pântano em que me quedara nulo. Pari meu ser definitivo, mas tirei-me a ferros de mim mesmo.

17.

São horas talvez de eu fazer o único esforço de eu olhar para a minha vida. Vejo-me no meio de um deserto imenso. Surjo do que ontem internamente fui, procuro explicar a mim próprio como chequei aqui.

22.

Escrevo com uma estranha mágoa, servo de uma sufocação intelectual, que me vem da perfeição da tarde. Este céu de azul precioso, desmaiando para tons de cor-de-rosa pálido sob uma brisa igual e branda, dá-me à consciência de mim uma vontade de eu girar. Estou escrevendo, afinal, por fuga e refúgio. Evito as ideias. Esqueço as expressões exatas, e elas abrilham-se-me no ato físico de escrever, como se a mesma pena as produzisse.

Do que pensei, do que senti, sobrevive, obscura, uma vontade inútil de chorar.

63.

Toda a vida humana é um movimento na penumbra. Vivemos, num lusco-fusco da consciência, nunca certos com o que somos ou com o que nos supomos ser. Nos melhores de nós vive a vaidade de qualquer coisa, e há um erro cujo ângulo não sabemos. Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espetáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja senão cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.

[…] Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objeto que lhe não disseram o que é. Jogamos às escondidas com ninguém. Há algures um subterfúgio transcendente, uma divindade fluida e só ouvida.

Releio, sim, estas páginas que representam horas pobres, pequenos sossegos ou ilusões, grandes esperanças desviadas para a paisagem, mágoas como quartos onde não se entra, certaz vozes, um grande cansaço, o evangelho por escrever.

Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas…

Releio? Menti! Não ouso reler. Não posso reler. De que me serve reler? O que está aí é outro. Já não compreendo nada…

64.

Choro sobre as minhas páginas imperfeitas, mas os vindouros, se as lerem, sentirão mais com o meu choro do que sentiriam com a perfeição, se eu a conseguisse, que me privaria de chorar e portanto até de escrever. O perfeito não se manifesta. O santo chora, e é humano. Deus está calado. Por isso podemos amar o santo, mas não podemos amar a Deus.

68.

O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões — a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.

A consciência da inconsciência da vida é o maior martírio imposto à inteligência. Há inteligências inconscientes — brilhos do espírito, correntes do entendimento, mistérios e filosofias — que têm o mesmo automatismo que os reflexos corpóreos, que a gestão que o figado e os rins fazem de suas secreções.

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DIÁRIO LÚCIDO

A minha vida, tragédia caída sob a pateada dos anjos e de que só o primeiro ato se representou.

Amigos, nenhum. Só uns conhecidos que julgam que simpatizam comigo e teriam talvez pena se um comboio me passasse por cima e o enterro fosse em dia de chuva.

O prêmio natural do meu afastamento da vida foi a incapacidade, que criei nos outros, de sentirem comigo. Em torno a mim há uma auréola de frieza, um halo de gelo que repelo os outros. Ainda não consegui não sofrer com a minha solidão. Tão difícil é obter aquela distinção de espírito que permita ao isolamento ser um repouso sem angústia.

Nunca dei crédito à amizade que me mostraram, como o não teria dado ao amor, se mo houvessem mostrado, o que aliás, seria impossível. Embora nunca tivesse ilusões a respeito daqueles que se diziam meus amigos, consegui sempre sofrer desilusões com eles — tão complexo e subtil é o meu destino de sofrer.

Nunca duvidei que todos me traíssem; e pasmei sempre quando me traíram. Quando chegava o que eu esperava, era sempre inesperado para mim.

Como nunca descobri em mim qualidades que atraíssem alguém, nunca pude acreditar que alguém se sentisse atraído por mim. A opinião seria de uma modéstia estulta, se factos sobre factos — aqueles inesperados factos que eu esperava — a não viessem confirmar sempre.

Nem posso conceber que me estimem por compaixão, porque, embora fisicamente desajeitado e inaceitável, não tenho aquele grau de amarfanhamento orgânico com que entre na órbita da compaixão alheia, nem mesmo aquela simpatia que a atrai quando ela não seja patentemente merecida; e para o que em mim merece piedade, não a pode haver, porque nunca há piedade para os aleijados de espírito. De modo que caí naquele centro de gravidade do desdém alheio, em que não me inclino para a simpatia de ninguém.

Toda a minha vida tem sido querer adaptar-me a isto sem lhe sentir demasiadamente a crueza e a abjeção.

É preciso certa coragem intelectual para um indivíduo reconhecer destemidamente que não passa de um farrapo humano, aborto sobrevivente, louco ainda fora das fronteiras da internabilidade; mas é preciso ainda mais coragem de espírito para, reconhecido isso, criar uma adaptação perfeita ao seu destino, aceitar sem revolta, sem resignação, sem gesto algum, ou esboço de gesto, a maldição orgânica que a Natureza lhe impôs. Querer que não sofra com isso, é querer de mais, porque não cabe no humano o aceitar o mal, vendo-o bem, e chamar-lhe bem; e, aceitando-o como mal, não é possível não sofrer com ele.

Conceber-me de fora foi a minha desgraça — a desgraça para a minha felicidade. Vi-me como os outros me veem, e passei a desprezar-me — não tanto porque reconhecesse em mim uma tal ordem de qualidades que eu por elas merecesse desprezo, mas porque passei a ver-me como os outros me veem e a sentir um desprezo qualquer que eles por mim sentem. Sofri a humilhação de me conhecer. Como este calvário não tem nobreza, nem ressurreição dias depois, eu não pude senão sofrer com o ignóbil disto.

Compreendi que era impossível a alguém amar-me, a não ser que lhe faltasse de todo o senso estético — e então eu o desprezaria por isso; e que mesmo simpatizar comigo não podia passar de um capricho da indiferença alheia.

Ver claro em nós e em como os outros nos veem! Ver esta verdade frente a frente! E no fim o grito de Cristo no Calvário, quando viu, frente a frente, a sua verdade. Senhor, senhor, por que me abandonaste?

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Fernando Pessoa  |  “Livro do Desassossego” 

(Cia. das Letras, 3a ed. revista e ampliada, 2011)

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A vida podia simplesmente “deixar” alguns, como quem sai de uma casa velha e solitária para lá jamais voltar a colocar os pés. Seria um alívio, melhor, “o” alívio definitivo.

Talvez a única solução certa para o nada da vida seja o nada da morte.

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Não há insatisfação profunda que não seja de natureza religiosa: nossos fracassos provêm de nossa incapacidade para conceber o Paraíso e aspirar a ele, como nossos malestares, da fragilidade de nossas relações com o absoluto. “Sou um animal religioso incompleto, padeço duplamente todos os males” – adágio da Queda, que o homem se repete para consolar-se. Ao não consegui-lo, recorre à moral, decide seguir, expondo-se ao ridículo, seu conselho edificante “Resolve-te a não estar mais triste”, lhe responde esta. E ele se esforça por entrar no universo do Bem e da Esperança… Mas seus esforços são ineficazes e antinaturais: a tristeza remontas à raiz de nossa perdição…, a tristeza é a poesia do pecado original…

(E. M. Cioran, “Gênese da tristeza”, In: Breviário de Decomposição)..

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De uma maneira um tanto subversiva, quero entregar a ciência para a religião, e mostrar que tratam do mesmo assunto. Quero mostrar que, se tivéssemos um retrato científico exato da condição humana – se o homem erguesse para si mesmo um espelho de sua condição na terra, do que significa ser um homem –, isso coincidiria exatamente com a compreensão religiosa da natureza humana.

(Ernest Becker, em entrevista para Sam Keen, “The Heroics of Everyday Life”)

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O mais profundo que há em nós é a preocupação religiosa. Enquanto se apodera de nós, parece como se remontássemos às fontes mesmas do nosso ser. E, ademais, é certo que a religião se confunde com os nossos começos, com o melhor que havia neles.

(E. M. Cioran, Cahiers)