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O famoso aforismo einsteniano ‘Deus não joga dados’ (Gott wuerfelt nicht) adquire, em português, um significado ainda mais profundo que o pretendido. Einstein quis dizer que os ‘dados’, isto é, pedras de jogar, não são protótipos dos fenômenos da natureza, porque esta obedece a regras preestabelecidas. Em português surge o segundo sentido de ‘dados’ como matéria-prima do conhecimento. Menciono isto a título de curiosidade, como exemplo de uma ironia (quem sabe sabedoria?) espontânea da língua.

Vilém Flusser (“Língua e Realidade”, 2007, p. 137)




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“Entangled” by Eda Akaltun (modified)


Essa é a razão pela qual a maioria de nós nem sequer se ressente da falta de liberdade. A pequena minoria, que sofre com a consciência do absurdo do jogo social, inventou um substituto para a fidelidade, chamado “compromisso”, que pode proporcionar uma sensação de liberdade. Essa minoria reconhece que a liberdade é o gesto de assumir responsabilidades, e que essa é a única estratégia que confere sentido ao jogo social. Assim como a fidelidade, o compromisso assume responsabilidades; sacrifica a disponibilidade e a mobilidade social em favor de uma relação específica. Mas há uma profunda diferença entre a fidelidade e o compromisso. [Este último] é baseado na decisão deliberada, [enquanto] a fidelidade [baseia-se] na espontaneidade. Ninguém decide ser fiel: a fidelidade é mantida. Em termos arcaicos, convenientes ao assunto: o compromisso é a fidelidade sem amor. Assim, a substituição da fidelidade pelo compromisso [ou engajamento] é um sintoma não apenas de nossa incapacidade para a liberdade existencial, mas acima de tudo, de nossa incapacidade para o amor.


Vilém Flusser ( Archives, 1983)  |  tradução: Jussara Almeida


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A DÚVIDA DA DÚVIDA

por Vilém Flusser


A dúvida é um estado de espírito polivalente. Pode significar o fim de uma fé ou pode significar o começo de uma outra. Pode ainda, se levada ao extremo, ser vista como “ceticismo”, isto é, como uma espécie de fé invertida. Em dose moderada, estimula o pensamento. Em dose excessiva, paralisa toda atividade mental. A dúvida, como exercício intelectual, proporciona um dos poucos prazeres puros, mas como experiência moral ela é uma tortura. A dúvida, aliada à curiosidade, é o berço da pesquisa e, portanto, de todo o conhecimento sistemático. Em estado destilado, no entanto, mata toda a curiosidade e é o fim de todo o conhecimento.

O ponto de partida da dúvida é sempre uma fé. Uma fé (uma “certeza”) é o estado de espírito anterior à dúvida. Com efeito, a fé é o estado primordial do espírito. O espírito “ingênuo” e “inocente” crê. Ele tem “boa-fé”. A dúvida acaba com a ingenuidade e inocência do espírito e, embora possa produzir uma fé nova e melhor, esta não mais será “boa”. A ingenuidade e a inocência do espírito se dissolvem no ácido corrosivo da dúvida. O clima de autenticidade se perde irrevogavelmente. O processo é irreversível. As tentativas dos espíritos corroídos pela dúvida de reconquistar a autenticidade, a fé original, não passam de nostalgias frustradas. São tentativas de reconquistar o paraíso. A s “certezas” originais, postas em dúvida, nunca mais serão certezas autênticas. A dúvida metodicamente aplicada produzirá, possivelmente, novas certezas, mais refinadas e sofisticadas, mas essas novas certezas nunca serão autênticas. Conservarão sempre a marca da dúvida que lhes serviu de parteira.

A dúvida pode ser, portanto, concebida como uma procura de certeza que começa por destruir a certeza autêntica para produzir certeza inautêntica. A dúvida é absurda. Surge portanto a pergunta: “Por que duvido?”. Essa pergunta é mais fundamental que a outra: “De que duvido?”. Trata-se, com efeito, do último passo do método cartesiano, a saber: trata-se de duvidar da dúvida. Trata-se, em outras palavras, de duvidar da autenticidade da dúvida em si. A pergunta “por que duvido?” implica a outra: “Duvido mesmo?”.

Descartes, e com ele todo o pensamento moderno, parece não dar esse último passo. Aceita a dúvida como indubitável. A última certeza cartesiana, incorruptível pela dúvida, é, a saber: “Penso, portanto sou”. Pode ser reformulada: “Duvido, portanto sou”. A certeza cartesiana é portanto autêntica, no sentido de ser ingênua e inocente. É uma fé autêntica na dúvida. Essa fé caracteriza toda a Idade Moderna, essa idade cujos últimos instantes presenciamos. Essa fé é responsável pelo caráter científico e desesperadamente otimista da Idade Moderna, pelo seu ceticismo inacabado, ao qual falta dar o último passo. À fé na dúvida cabe, durante a Idade Moderna, o papel desempenhado pela fé em Deus durante a Idade Média.

A dúvida da dúvida é um estado de espírito fugaz. Embora possa ser experimentado, não pode ser mantido. Ele é sua própria negação. Vibra, indeciso, entre o extremo “tudo pode ser duvidado, inclusive a dúvida”, e o extremo “nada pode ser autenticamente duvidado”. Com o fim de superar o absurdo da dúvida, leva esse absurdo ao quadrado. Oscilando, como oscila, entre o ceticismo radical (do qual duvida) e um positivismo ingênuo radicalíssimo (do qual igualmente duvida), não concede ao espírito um ponto de apoio para fixar-se.

Kant afirmava que o ceticismo é um lugar de descanso para a razão, embora não seja uma moradia. O mesmo pode ser afirmado quanto ao positivismo ingênuo. A dúvida na dúvida impede esse descanso. O espírito tomado pela quintessência da dúvida está, em sua indecisão fundamental, numa situação de vaivém que a análise de Sísifo feita por Camus ilustra apenas vagamente. O Sísifo de Camus é frustrado, em sua correria absurda, por aquilo dentro do qual corre. Daí o problema básico camusiano: “Por que não me mato?”. O espírito tomado pela dúvida da dúvida é frustrado por si mesmo. O suicídio não resolve a sua situação, já que não duvida suficientemente do caráter duvidoso da vida eterna. Camus nutre ainda a fé na dúvida, embora essa fé periclite nele.

“Penso, portanto sou”. Penso: sou uma corrente de pensamentos. Um pensamento segue o outro, portanto sou. Um pensamento segue o outro por quê? Porque o primeiro pensamento não basta a si mesmo se exige outro pensamento. Exige outro para certificar-se de si mesmo. Um pensamento segue outro porque o segundo duvida do primeiro e porque o primeiro duvida de si mesmo. Um pensamento segue o outro pelo caminho da dúvida. Sou uma corrente de pensamentos que duvidam. Duvido. Duvido, portanto sou. Duvido que duvido, portanto confirmo que sou. Duvido que duvido, portanto duvido que sou. Duvido que duvido, portanto sou, independentemente de qualquer duvidar. Assim se afigura, aproximadamente, o último passo da dúvida cartesiana. Estamos num beco sem saída. Estamos, com efeito, no beco que os antigos reservaram a Sísifo.

A mesma situação pode ser caracterizada por outra corrente de pensamentos: por que duvido? Porque sou. Duvido portanto que sou. Portanto duvido que duvido. É o mesmo beco visto de outro ângulo.

Esse é o lado teórico da dúvida radical. Tão teórico, com efeito, que até bem pouco tempo tem sido desprezado, com razão, como um jogo fútil de palavras. Tratava-se de um argumento pensável, mas não existencialmente visível (“erlebbar”). Era possível duvidar teoricamente da afirmativa “sou” e era possível duvidar teoricamente da afirmativa “duvido que sou”, mas essas dúvidas não passavam de exercícios intelectuais intraduzíveis para o nível de vivência. Os poucos indivíduos que experimentaram vivencialmente a dúvida da dúvida, que autenticamente duvidaram das afirmativas “sou” e “duvido que sou”, foram considerados loucos.A situação atual é diferente. A dúvida da dúvida se derrama, a partir do intelecto, em direção a todas as demais camadas da mente e ameaça solapar os últimos pontos de apoio do senso de realidade. É verdade que “senso de realidade” é uma expressão ambígua. Pode significar simplesmente “fé”, pode significar “sanidade mental” e pode significar “capacidade de escolha”. Entretanto o presente contexto prova que os três significados são fundamentalmente idênticos. A dúvida da dúvida ameaça destruir os últimos vestígios da fé, da sanidade e da liberdade, porque ameaça tornar o conceito “realidade” um conceito vazio, isto é, não vivível.

O esvaziamento do conceito “realidade” acompanha o progresso da dúvida e é, portanto, um processo histórico, se visto coletivamente, e um processo psicológico, se visto individualmente. Trata-se de uma intelectualização progressiva. O intelecto, isto é, aquilo que pensa — portanto aquilo que duvida –, invade as demais regiões mentais para articulá-las e as torna, por isso mesmo, duvidosas. O intelecto desautentica todas as demais regiões mentais, inclusive aquelas regiões dos sentidos que chamo, via de regra, de “realidade material”. A dúvida da dúvida é a intelectualização do próprio intelecto; com ela, o intelecto reflui sobre si mesmo. Torna-se duvidoso para si mesmo, desautentica a si mesmo. A dúvida da dúvida é o suicídio do intelecto. A dúvida cartesiana, tal como foi praticada durante a Idade Moderna, portanto a dúvida incompleta, a dúvida limitada ao não-intelecto acompanhada de fé no intelecto, produziu uma civilização e uma mentalidade que deram refúgio, dentro do intelecto, à realidade.

Trata-se de uma civilização e de uma mentalidade idealistas. A dúvida completa, a dúvida da dúvida, a intelectualização do intelecto destroe esse refúgio e esvazia o conceito “realidade”. As frases aparentemente contraditórias, entre as quais a dúvida da dúvida oscila, a saber, “tudo pode ser objeto de dúvida, inclusive a dúvida” e “nada pode ser autenticamente objeto de dúvida”, se resolvem, nesse estágio do desenvolvimento intelectual, na frase: “Tudo é nada”. O idealismo radical, a dúvida cartesiana radical, a intelectualização completa desembocam no niilismo.

Somos a primeira ou a segunda geração daqueles que experimentam o niilismo vivencialmente. Somos a primeira ou a segunda geração daqueles para os quais a dúvida da dúvida não é mais um passatempo teórico, mas uma situação existencial. Enfrentamos, nas palavras de Heidegger, “a clara noite do nada”. Nesse sentido somos os produtos perfeitos e consequentes da Idade Moderna. Conosco a Idade Moderna alcançou a sua meta. Mas a dúvida da dúvida, o niilismo, é uma situação existencial insustentável. A perda total da fé, a loucura do nada todo-envolvente, a absurdidade de uma escolha dentro desse nada são situações insustentáveis. Nesse sentido, somos a superação da Idade Moderna: conosco a Idade Moderna se reduz ao absurdo.

Os sintomas dessa afirmativa abundam. O suicídio do intelecto, fruto de sua própria intelectualização, se manifesta em todos os terrenos. No campo da filosofia, produz o existencialismo e o logicismo formal, duas abdicações do intelecto em favor de uma vivência bruta e inarticulada — portanto, o fim da filosofia. No campo da ciência pura, produz a manipulação com conceitos conscientemente divorciados de toda realidade, tendendo a transformar a ciência pura em instância de proliferação de instrumentos conscientemente destinados a destruírem a humanidade e os seus próprios instrumentos (são portanto instrumentos destruidores e autodestrutivos). No campo da arte, produz a arte que significa a si mesma, portanto uma arte sem significado. No campo da “razão prática”, produz um clima de oportunismo imediatista, um “carpe diem” tão individual quanto coletivo, acompanhado do esvaziamento de todos os valores.

Há, obviamente, reações contra esse progresso rumo ao nada. Essas reações são, entretanto, reacionárias, no sentido de tentarem fazer retroceder a roda do desenvolvimento. São desesperadas, porque tentam reencontrar a realidade dos níveis já esvaziados pelo intelecto em seu avanço. No campo da filosofia, caracterizam-se pelo prefixo melhorativo “neo” (neokantianismo, neo-hegelianismo, neotomismo). No centro da ciência pura, caracterizam-se pelo esforço de reformular as premissas da disciplina científica em bases mais modestas. No campo da ciência aplicada, caracterizam-se por uma esperança já agora inautêntica em uma nova revolução industrial, capaz, esta sim, de produzir o paraíso terrestre. No campo da arte, resultam naquele realismo patético chamado “socialista”, que não chama a si mesmo de “neo-realista” por pura questão de pudor.

No campo da “razão prática” assistimos a tentativas de uma ressurreição das religiões tradicionais: pululam as seitas de religiões inventadas “ad hoc” ou buscadas em regiões geográfica ou historicamente distantes. No campo da política e da economia, ressurgem inautenticamente conceitos esvaziados e superados há muito, como, por exemplo, o conceito medieval de “soberania”. Busca-se a realidade, já agora completamente inautêntica, no conceito do “sangue” (nazismo) ou da “liberdade de empreendimento” (neoliberalismo), conceitos esses emprestados de hipotéticas épocas passadas. Todas essas reações são condenadas ao malogro. Querem ressuscitar fés mortas ou inautênticas “ab initio”.

Embora seja o niilismo uma situação existencial insustentável, precisa ser tomado como ponto de partida para toda tentativa de superação. A inautenticidade das reações acima esboçadas reside na sua ignorância (autêntica ou fingida) da situação atual da filosofia, da ciência pura e aplicada, da arte, do indivíduo dentro da sociedade e da sociedade perante o indivíduo. Reside na ignorância do problema fundamental: em todos esses terrenos, já agora altamente intelectualizados, a dúvida desalojou a fé e perdeu o senso da realidade. Essa situação deve ser aceita como um fato, embora talvez não ainda como um fato totalmente consumado. Resíduos de fé podem ser encontrados em todos esses terrenos, menos no campo da filosofia, mais no campo da sociedade, mas resíduos condenados. Não é a partir deles que sairemos da situação absurda do niilismo, mas a partir do próprio niilismo, se é que sairemos. Trata-se, em outras palavras, da tentativa de encontrar um novo senso de realidade. O presente trabalho é uma contribuição modesta para essa busca no campo da filosofia.


(Trecho do ensaio “A Dúvida”, Relume Dumará)


Posted by: Jussara


Argumentei, por analogia, que eu não poderia ter escolhido a mulher que vive ao meu lado, uma vez que não teria tido a oportunidade de conhecer e experimentar todas as mulheres do mundo. Ao mesmo tempo, porém, eu precisava, como preciso, escolher a mulher que vive ao meu lado todos os dias, para viver uma vida realmente boa. Logo, não escolhemos liberalmente entre muitas possibilidades, porque cada escolha importante se dá em razão de uma possibilidade única.

Como diz o ditado estóico, “o destino guia quem consente e arrasta quem recusa”. Ou, segundo Ortega Y Gasset: “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Formulando de outra maneira, como não escolho as minhas circunstâncias, preciso escolhê-las cotidianamente.

Gustavo Bernardo  
Em prefácio de Língua e Realidade, obra de Vilém Flusser



Posted by: Jussara




SEXO



por Vilém Flusser 


Quem vê apenas a enorme multidão das formas dos seres vivos, tende a admirar a riqueza da vida. Com efeito: que diferença entre algas e carvalhos, entre borboletas e baleias. Mas quem vê as regras que ordenam o jogo da vida, pode vir a admitir curiosa pobreza da vida. Devorar-se mutualmente, multiplicar-se, eis as duas únicas regras. Deve haver planeta, na imensidão cretina dos cosmos, no qual a vida se comporta de forma um pouco mais inteligente.

Considerem o método para a multiplicação dos seres vivos. É de monotonia enfadonha (não estivéssemos nós próprios ativamente engajados no processo). Com efeito, há dois metodos apenas: divisão e sexo. Os que se dividem (por exemplo, os uniculares), escapam à morte. Vivem ternamente e de forma sempre mais ampla. Mas compraram a imortalidade pelo preço do sexo. Os que recorrem ao sexo para multiplicar-se, morrem. O salário do pecado é a morte.

Os seres primitivos (primitivos, obviamente do ponto de vista chauvinisticamente humano), são bissexuados e podem autofertilizar-se. Alturas do narcisismo inalcançáveis para nós, meramente humanos. Os outros (carvalhos, aranhas, homens, e, de acordo com alguns escolasticos, anjos), somos munidos de dois sexos separados um do outro. O feminino, que é responsável pela multiplicação das espécies, e o masculino, um tanto subalterno, que é o instrumento graças ao qual o feminino se multiplica. Durante as múltiplas centenas de milhões de anos (que é a idade da vida na Terra), não lhe ocorreu idéia mais brilhante para multiplicar-se. Uma pena.

O sexo masculino é uma espécie de luxo que a vida se permite. Uma espécie de apêndice do feminino. A vida é feminina. Tal afirmativa pode servir de arma para feministas em sua luta contra nós, meros machos. Mas não necessariamente. Permite argumentar, é verdade, que o macho é mera função da fêmea, argumento este levado às últimas conseqüências por certos peixes, nos quais a fêmea devora o macho depois do ato. Mas permite argumentar também que o macho, sendo luxo, é o sexo mais elegante (argumento ainda inaproveitado pela moda masculina). Prova do seguinte: fatos não importam. Importa interpretá-los.

Embora fatos não importem, são obstinados. Nenhuma revolução cultural pode mudar, por enquanto, o fato dos dois sexos. Nem as botas altas das mulheres, nem o cabelo longo dos rapazes, nem o terceiro, nem o quarto e quinto sexos que por ai passeiam. Por enquanto isto é “dado”. Até que a biologia nos forneça outras alternativas.



(Publicado originalmente na Folha de São Paulo em 17/02/1972)