Hoje se diz que o luxo é o estímulo mais forte para os pobres, para os flagelados pelo trabalho e para os casados: por causa dele, aspiram à riqueza. Hostiliza-se a satisfação e a filosofia idílica com danos à riqueza e à força de trabalho da nação. Tanta riqueza quanto possível, tanta inveja e desprazer quanto possível, tanta concorrência quanto possível! Em Estados ricos, as artes teriam sido fomentadas da melhor maneira por meio de pessoas luxuosas; a arte como um meio para despertar a inveja dos inferiores, como um fragmento de luxo. Por outro lado, sua irrupção no luxo deve ser uma apologia do luxo e da intenção de insatisfação. As artes acalmam e anestesiam transitoriamente o desprazer de tais estados, em todo caso o enaltecem.


Friedrich Nietzsche
(Sabedoria para depois de amanhã, fragmento 11[180], outubro de 1881)



Ilustração de Allison Kunath (modificada)


Pensamento fundamental da cultura do comércio: a massa inferior, com sua pequena posse, torna-se insatisfeita ao olhar o rico; ela acredita que este é o homem feliz. A massa ativa de escravos, que trabalha em excesso e raramente descansa, acredita que o homem sem trabalho físico é que é feliz (por exemplo, o monge — é por isso que os escravos tornaram-se monges de bom grado). O homem flagelado pela cobiça e raramente livre acredita que o erudito, o contemplativo e o religioso é que são homens felizes. O nervoso e entusiasmado acredita que o homem de uma única grande paixão seja o feliz. O homem que nunca conheceu nenhuma distinção crê que o mais honrado seja o feliz. O que se possui raramente e em pouca quantidade é o que provoca na fantasia das pessoas a imagem do feliz, e não o que lhes falta. A falta produz a indiferença em relação ao oposto da falta.


Friedrich Nietzsche
(Sabedoria para depois de amanhã, fragmento 11[246], outubro de 1881)


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Foto/Photo: Abbas


Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.


(Cecilia Meireles)


Ilustração de Shaun Tan

Ilustração: Shaun Tan


O concreto pintado de verde na frente da casa, que à primeira vista parecia um jeito inovador de economizar com jardinagem, agora era simplesmente desolador. A água quente chegava relutante à pia da cozinha, como se tivesse atravessado quilômetros, e mesmo assim sem muita convicção, às vezes com um tom amarronzado. A maioria das janelas não abria direito quando era preciso espantar as moscas. Outras não fechavam direito e aí as moscas entravam. As árvores recém-plantadas morreram no solo arenoso do quintal, onde batia muito sol, e lá ficaram como lápides sob os varais frouxos, um pequeno cemitério da frustração. Parecia impossível achar o tipo certo de comida, ou aprender a dizer coisas mais simples do jeito correto. As crianças falavam muito pouco, a não ser para reclamar.

“País nenhum é pior que esse”, anunciava a mãe, em voz alta e repetidas vezes, e ninguém sentia vontade de contrariar.

Depois de paga a prestação da casa, não sobrava dinheiro para os consertos. “Vocês têm de ajudar mais a sua mãe, crianças”, o pai sempre falava, e isso incluía achar a árvore de Natal mais barata possível e guardá-la temporariamente no sotão. Finalmente tendo algo de bom para esperar, as crianças passaram o mês seguinte criando a decoração por conta própria, recortando folhas e papel laminado em formatos variados, presos com barbante sobre o chão da sala de estar. Aquilo ajudava a esquecer o calor sufocante e os problemas do colégio.

Mas quando foram descer a árvore, descobriram que ela tinha ficado presa nas vigas do telhado — fizera tanto calor lá em cima que o plástico derreteu. “País nenhum é que nem este!”, resmungou a mãe. Mas ainda havia árvore para aproveitar, então as crianças começaram a raspá-la do teto com facas de cozinha. Foi quando o mais novo pisou na parte frágil do sótão e o pé dele atravessou o assoalho. Que desastre! Todo mundo ficou gritando e agitando os braços; desceram a escada correndo para examinar o prejuízo no andar de baixo — um buraco que sem dúvida custaria uma fortuna para consertar. Mas não acharam nada. Confusos, passaram de quarto em quarto. Em todos o teto estava perfeito, sem buraco algum.

Foram conferir de novo por onde o pé havia passado — não teria sido na área de serviço ou na cozinha? Foi então que, de repente, veio um cheiro de grama, de pedras úmidas e de seiva, soprando como uma brisa do sotão. Todos foram examinar o buraco de perto… Ele se abria para um aposento totalmente diferente, que eles não conheciam — um aposento incrível, enfiado entre os outros. Além disso, parecia dar para fora de casa.

Foi assim que a família descobriu o local que viriam a chamar de “pátio de dentro”. Na verdade, estava mais para um jardim de palácio, com árvores altas mais velhas que qualquer uma que já tinham visto. Havia paredes antigas decoradas com afrescos; quanto mais olhavam para elas, mais a família reconhecia aspectos de suas próprias vidas nessas estranhas alegorias desbotadas.

As estações do patio de dentro eram invertidas: era inverno no verão; depois eles viriam a aproveitar o sol veranil no período mais frio e úmido do ano. Era como estar de volta ao país natal, mas também a outro lugar, um lugar totalmente diferente… E ficavam ponderando sobre isso enquanto flores incomuns pairavam pelo ar em noites tranquilas.

Virou o santuário deles. Visitavam-no pelo menos duas vezes por semana para piqueniques, carregando tudo que precisavam até o sotão e depois descendo por uma escada que deixaram por lá permanentemente. Não viam necessidade de questionar a lógica daquilo, simplesmente aceitavam aquela presença, agradecidos.

Decidiu-se que o pátio de dentro seria um segredo de família, embora ninguém tivesse expressado isso em palavras — só parecia ser a coisa certa a fazer. Sentiam, também, que não era possível contar aos outros sobre aquilo.

Um dia, porém, a mãe ficou atônita com o que uma senhora grega falou. Elas estavam conversando por cima da cerca do quintal enquanto estendiam roupas, e a vizinha comentou: “A gente costuma fazer churrasco no pátio de dentro, depois que conseguimos passar a churrasqueira, sabe, pelo telhado?”, e riu alto.

De início a mãe achou que tinha entendido mal, mas ao descrever o pátio de dentro da sua própria casa, a senhora grega sorriu e acenou com a cabeça. “Sim, sim, toda casa tem um pátio de dentro, se você encontrar. É muito estranho, sabe, pois não existe em outros lugares. País nenhum”.


Shaun Tan  |  “Contos de Lugares Distantes”

(Tradução: Érico Assis. Cosac Naify, 2012, pp. 56-63)


Ilustração de Shaun Tan

Ilustração: Shaun Tan


Meu nome é Lola. É assim que me chamam. Quando gritam o meu nome, sei que me querem perto deles. Psicologicamente posso ser definida como um animal incapaz de mentir ou fingir. Minha alma mora na minha pele. Quando estou alegre, meu rabo abana por conta própria, independente da minha vontade. Quando a alegria é demais, dou umas mijadinhas. Quando estou triste, meu rabo e minha cabeça abaixam. Quando estou com sono, me esparramo no chão, do rabo ao focinho. Tudo se dependura: pele, orelhas, testa, olhos. Meu dono gosta de mim embora fique bravo quando eu pulo para abraçá-lo e lhe dou uma lambida. O que é verdade para mim não é verdade para o meu dono. A alma dele não mora na pele. Ele mente. Ele finge. Nunca o vi dar uma mijadinha de felicidade. Talvez ele não seja suficientemente feliz para isso. Às vezes, eu estou deitada do jeito como descrevi e ele está assentado numa cadeira. Ele olha para mim de um jeito diferente. Não é alegria. Não é tranquilidade. Acho que é inveja. Ele gostaria de ser como eu sou, mas não tem coragem… Está morrendo de vontade de se esparramar também no chão frio, como eu. Mas não o faz. Fico a pensar: o que o impede? Acho que é vergonha. Os homens têm vergonha uns dos outros. Sou feliz porque não tenho vergonha e faço o que quero. Talvez essa seja a razão por que os homens gostam de ter pets: porque nos pets eles projetam uma felicidade que eles mesmos não têm. Diga-me o pet que você tem e eu saberei como é a sua alma. Os pets têm uma função terapêutica. Bem, eu sou uma cadela, e tudo o que disse foi de brincadeirinha. Porque eu mesma, na realidade, me contento em ser feliz. Não gasto tempo pensando essas coisas…


Rubem Alves  |  “Ostra Feliz Não Faz Pérola”  (p. 24-25)


Posted by: Jussara


Kierkegaard pode descrever a quantas anda esta alma vazia melhor do que ninguém… melhor do que eu, com toda a certeza!


Jeg gider slet ikke…

Não estou com vontade de fazer nada. Não estou a fim de andar a cavalo, é um movimento demasiado forte; não estou a fim de caminhar, é por demais cansativo; não tenho vontade de me deitar, pois ou teria de permanecer deitado, e não estou a fim disso, ou teria que me levantar de novo, e a preguiça não deixaria, de jeito nenhum. Summa Summarum: não sinto vontade de nada.





Jeg er tilmode som en Brik i Schakspillet…

Meu estado de ânimo se assemelha ao que deve sentir um peão no jogo de xadre, quando o adversário declara: este peão não pode ser movido!


Jeg mangler overhovedet Taalmodighed til at leve…

Falta-me absolutamente paciência para viver. Eu não consigo ver a grama a crescer, mas se não posso vê-la então simplesmente não tenho vontade nenhuma de vê-la. Minhas concepções são consideradas fugazes de um “fahrender Scholastiker” [estudante em viagem], que passa pela vida a toda pressa. Costuma-se dizer que Deus Nosso Senhor sacia o estômago antes dos olhos; não consigo percebê-lo: meus olhos estão fartos e cansados de tudo e, contudo, morro de fome.





Min Betragning af Livet er aldeles meningsløs…

Minha concepção de vida é totalmente sem sentido. Suponho que um espírito mau colocou uns óculos em meu nariz, com uma lente que aumenta numa proporção monstruosa, e com outra lente que diminui na mesma proporção.


Livet er bleven mig en beesk Drik…

A vida transformou-se para mim em uma bebida amarga e, contudo, ela deve ser ingerida como gotas, devagar, contando.


Ak, Lykkens Dor den gaaer ikke ind ad…

Ai, a porta da felicidade não abre de fora para dentro, de modo que alguém pudesse forçá-la atirando-se sobre ela; porém ela se abre para fora, e por isso não há nada a fazer.






Søren Kierkegaard  |  Do Desespero Silencioso ao Elogio do Amor Desinteressado

(Tradução: Álvaro Valls. Porto Alegre: Escritos, 2004, pp. 19-23)