Posted by: Jussara


Mas é exatamente isso que é supreendente em ti: tu gostas de dar prazer. Gostas de fazer do teu corpo um objeto agradável, gostas de dar prazer com o teu próprio corpo. É precisamente isso o que os ocidentais já não conseguem fazer. Perderam completamente o sentimento da dádiva. Mesmo esforçando-se, não conseguem assumir o sexo como uma coisa natural. Além de terem vergonha do seu corpo, muito diferente do corpo das estrelas pornográficas, também não sentem uma verdadeira atração pelo corpo dos outros. Ora, é impossível fazer amor sem um certo abandono, sem a aceitação, pelo menos temporária, de um certo estado de fraqueza e de dependência. Tanto a exaltação sentimental como a obsessão sexual têm a mesma origem, resultam ambas do esquecimento parcial do eu; é algo que não pode acontecer sem que a pessoa perca alguma coisa de si mesma. E nós tornamo-nos frios, racionais, extremamente conscientes dos nossos direitos e da nossa existência individual. Primeiro que tudo, queremos evitar a alienação e a dependência; além disso, vivemos obcecados com a saúde e com a higiene. E não são essas as condições ideais para fazer amor.

Michel Houellebecq  |  “Plataforma” (tradução portuguesa)



Pensai no casal mais belo, mais encantador, como ele se atrai e se repele, se deseja e foge um do outro com graça num belo jogo de amor. Chega o instante da volúpia, e toda a brincadeira, toda a alegria graciosa e doce de súbito desapareceram. Por que? Porque a volúpia é bestial, e a bestialidade não ri. As forças da natureza agem por toda a parte seriamente. A volúpia dos sentidos é o oposto do entusiasmo que nos abre o mundo ideal. O entusiasmo e a volúpia são graves e não comportam a brincadeira.

Arthur Schopenhauer  | “Metafísica do Amor”


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  por Eliane Brum


Desde pequena, sexo, livros e comida estiveram intimamente ligados na minha vida. Graças a isso, para mim não há homem feio. O que não suporto é homem que cuida do corpinho, mas esquece que os neurônios também são filhos de deus. O cara pode se assemelhar ao piolho da Tasmânia, mas se disser uma frase inteligente eu fico toda alvoroçada. É claro que se disser algo inteligente querendo parecer inteligente ou se achando o último pinto depois do holocausto nuclear, viro as costas na hora e vou comprar uma fanta-uva.

O fato é que, para mim, não há nada mais afrodisíaco que uma frase inteligente, mais ainda se ela me fizer rir, o cheiro de livro velho e alguma coisa para mastigar. Por isso eu tenho um Ipad, mas sigo frequentando sebos. E sofro de bloqueios para fazer dieta. Resumindo. Minha equação erótica é:

homem inteligente + biblioteca + comida = sexo selvagem

E aí há um ponto intrigante: por que sexo selvagem? Passei anos buscando a fonte desta combinação que chegou a me causar alguns problemas ocasionais com a lei. Horas e horas de divã. Hipnose, florais e, num ato de desespero, cheguei a fazer uma regressão a outras vidas. Apenas para descobrir que a soma das vidas passadas, pelo menos as minhas, resultaram num profundo tédio ao longo das eras. Ainda bem que a gente não lembra, senão ia preferir dormir a nascer.

E então, bingo. Agora pela manhã tive um insight. Do tipo um clarão no cérebro com trilha do Gênesis. Aconteceu quando eu tinha 11 anos. Eu precisava pesquisar algum tema do fascinante currículo da quinta série e peguei uma carona com o meu pai para a biblioteca da faculdade numa noite em que ele daria aula. Era a maior biblioteca que eu já tinha visto e, o melhor, tinha salinhas. Me fechei numa salinha com uma pilha de livros jamais lembrarei sobre o quê. Sou muito sensível a atmosferas. Posso ficar horas parada, aparentemente não fazendo nada, mas na verdade estou vasculhando o ambiente.

A biblioteca ficava praticamente no meio de um bosque. E à noite a vida se impunha. Mariposas cometiam suicídio atirando-se contra a lâmpada fluorescente. Insetos caminhavam sobre a mesa com um número improvável de patas. Pernilongos produziam um remake cinematográfico de “A Comilança” no meu corpo. Então eu vi. O louva-a-deus. Ou melhor, a louva-a-deusa. Acompanhei passo a passo o sexo mais eletrizante de toda a minha vida com medo de respirar e quebrar o encanto.

Anos depois eu participaria de uma caravana para assistir ao Império dos Sentidos” [IMDb] no cinema da cidade pequena, supervisionada pela irmã casada de uma amiga. Ao perguntar minha opinião no final do filme, minhas colegas ficaram chocadas. Eu apenas esbocei um “puff”. Aos 14 anos, eu já tinha visto coisa muito mais impactante.

E tinha mesmo. Ali, na biblioteca, o louva-a-deus perdeu a cabeça. Literalmente, enquanto gozava (ou pelo menos eu espero que sim). Como diria o biólogo Alessandro Boffa no genial Você é um animal, Viskovitz? [caí em gargalhadas com esse livro… euzinha, não a Eliane], ao terminar, ainda mastigando, a superfêmea resmungou: “Crocante, rico em fibras”. Fiquei extasiada. Até hoje, quando vejo aquelas mulheres alfas desfilando por aí com seus sapatos de matar barata em canto, eu digo: puff. Poderosa mesmo é a louva-a-deusa.

E foi assim que tudo começou para mim. O meu ponto zero. Nos próximos anos, seria a vez de a minha família ficar extasiada com minha paixão pelos estudos, amplamente pavoneada para parentes e amigos reunidos na mesa de refeições. “Esta guria não sai da biblioteca.”

E eu só mastigando o franguinho de domingo. Por enquanto.

Posted by: Jussara




SEXO



por Vilém Flusser 


Quem vê apenas a enorme multidão das formas dos seres vivos, tende a admirar a riqueza da vida. Com efeito: que diferença entre algas e carvalhos, entre borboletas e baleias. Mas quem vê as regras que ordenam o jogo da vida, pode vir a admitir curiosa pobreza da vida. Devorar-se mutualmente, multiplicar-se, eis as duas únicas regras. Deve haver planeta, na imensidão cretina dos cosmos, no qual a vida se comporta de forma um pouco mais inteligente.

Considerem o método para a multiplicação dos seres vivos. É de monotonia enfadonha (não estivéssemos nós próprios ativamente engajados no processo). Com efeito, há dois metodos apenas: divisão e sexo. Os que se dividem (por exemplo, os uniculares), escapam à morte. Vivem ternamente e de forma sempre mais ampla. Mas compraram a imortalidade pelo preço do sexo. Os que recorrem ao sexo para multiplicar-se, morrem. O salário do pecado é a morte.

Os seres primitivos (primitivos, obviamente do ponto de vista chauvinisticamente humano), são bissexuados e podem autofertilizar-se. Alturas do narcisismo inalcançáveis para nós, meramente humanos. Os outros (carvalhos, aranhas, homens, e, de acordo com alguns escolasticos, anjos), somos munidos de dois sexos separados um do outro. O feminino, que é responsável pela multiplicação das espécies, e o masculino, um tanto subalterno, que é o instrumento graças ao qual o feminino se multiplica. Durante as múltiplas centenas de milhões de anos (que é a idade da vida na Terra), não lhe ocorreu idéia mais brilhante para multiplicar-se. Uma pena.

O sexo masculino é uma espécie de luxo que a vida se permite. Uma espécie de apêndice do feminino. A vida é feminina. Tal afirmativa pode servir de arma para feministas em sua luta contra nós, meros machos. Mas não necessariamente. Permite argumentar, é verdade, que o macho é mera função da fêmea, argumento este levado às últimas conseqüências por certos peixes, nos quais a fêmea devora o macho depois do ato. Mas permite argumentar também que o macho, sendo luxo, é o sexo mais elegante (argumento ainda inaproveitado pela moda masculina). Prova do seguinte: fatos não importam. Importa interpretá-los.

Embora fatos não importem, são obstinados. Nenhuma revolução cultural pode mudar, por enquanto, o fato dos dois sexos. Nem as botas altas das mulheres, nem o cabelo longo dos rapazes, nem o terceiro, nem o quarto e quinto sexos que por ai passeiam. Por enquanto isto é “dado”. Até que a biologia nos forneça outras alternativas.



(Publicado originalmente na Folha de São Paulo em 17/02/1972)

Posted by: CAROL

Sexo não é só atrito e diversão superficial. É também a maneira como nos vingamos da morte. Não se esqueça da morte. Não se esqueça da morte jamais. É verdade, também o sexo tem um poder limitado. Eu sei muito bem quais são os limites desse poder. Mas me diga uma coisa: existe poder maior?

Philip Roth   |  “O Animal Agonizante”

Posted by: Jussara & Carol

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As mulheres não manifestam nenhuma resistência a ler escritos eróticos e não torcem o nariz para o prazer de ver filmes de caráter sensual. Apenas o  hard mecânico e “ginecológico” permanece exterior à fantasia feminina. Não é o excesso dos sentidos que choca o público feminino, é muito mais seu déficit quando o sexo se reduz a funcionamentos anônimos, pobres em ressonância imaginária, estética e emocional. As diversas reticências das mulheres não exprimem um resíduo de moralismo, mas a importância das significações sentimentais em seu erotismo.

Gilles Lipovetsky  |  “A terceira mulher(p. 40)