[Sempre] que se abre um livro pela primeira vez, há nisso algo de semelhante ao arrombamento de um cofre. Sim, é exatamente isso: o leitor frenético é como um assaltante que passou horas cavando um túnel para entrar no caixa-forte de um banco. Ele emerge cara a cara com centenas de cofres, todos idênticos, e abre-os um por um. E cada vez que uma caixa é aberta, ela perde seu anonimato e se torna única: uma está cheia de pinturas, outra contém uma coleção de notas bancárias, uma terceira contém jóias ou cartas amarradas com fita, gravuras, objetos sem qualquer valor, talheres de prata, fotos, moedas de ouro, flores secas, arquivos em papel, copos de cristal ou brinquedos para crianças — e assim por diante. Há algo de intoxicante em abrir um [livro] novo, descobrir o seu conteúdo e sentir-se exultante porque, num piscar de olhos, já não se está mais de frente a um conjunto de caixas, mas na presença das riquezas e infelizes banalidades ​​que compõem a existência humana.

Jacques Bonnet  |  Phantoms on the Bookshelves”  

(tradução: Jussara Almeida)

Existem alguns trabalhos tão luminosos que nos enchem de vergonha pela vida escassa a que estamos resignados, que nos imploram para levarmos outra vida, mais sábia e mais completa; trabalhos tão poderosos que nos dão força e nos obrigam a novos empreendimentos. Um livro pode desempenhar esse papel.

Hervé Le Tellier  |  “Enough About Love

(tradução: Jussara Almeida)

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Posted by: Jussara


Abaixo, uma boa parte dos livros que li em 2012. Não mostro todos porque comecei alguns deles em 2011, e outros ainda não terminei, fora os que viraram “livros de cabeceira”, desses que vamos lendo conforme o humor e o tempo disponível. Dos que inclui na imagem, alguns entraram para a minha lista de preferidos, como os do escritor angolano José Eduardo Agualusa.

Agualusa foi a minha grande descoberta em 2012, e tive o privilégio de ouví-lo falar, assim de pertinho, na cidade onde resido provisoriamente. Um presente! Sua simpatia e carisma são contagiantes. Suas palavras, faladas, arrancaram-me muitas risadas e, porque não dizer também, admiração; já as escritas provocaram surpresa, contentamento, tristeza, saudade e até lágrimas. Considero-o hoje uma parte importante dessa “redescoberta” da força e da beleza da língua portuguesa, que vem superando minhas expectativas desde 2008. Não podia ter encontrado melhor fonte de inspiração, depois de Mia Couto e da deliciosa música de António Zambujo e Ana Moura.

Já Dostoyevsky (não gosto de escrever com “i”, sinto muito) faz parte da lista de preferidos há muitos anos, e jamais sairá dela, não importa a obra! Um gênio que, felizmente, deixou um incrível legado. Alimento para toda uma vida.

Nem todos os livros são ótimos. Um deles surgiu de uma boa ideia, mas sua apresentação é superficial; apesar disso, resolvi incluí-lo, pois a edição é bem cuidada. Há autores até então desconhecidos para mim, entre eles, três títulos esplêndidos (Agualusa, Mário de Carvalho e Péter Esterházy) e outros muito criativos. Há também uma edição da Cosac para “colecionar” (com desenhos de Segall), uns dois ou três que são puro divertimento, e algumas capas bem interessantes. Last but no least, exemplos de meu amor imenso pelo cinema e por sua capacidade de transcender o mero entretenimento e tocar a alma — coisa que só grandes mestres conseguem fazer, claro.

Design, filosofia, ciência, ficção, não-ficção, poesia… Se parecer interessante e bem escrito, tem grandes chances de entrar na lista dos meus “desejos de leitura”. Não sou tão preconceituosa quanto posso parecer, apesar de minhas constantes reclamações sobre um certo best-seller mundial de 2012. Enfim…

Que venham mais livros bons em 2013! A listinha nova já foi posta em movimento. 😉



[1] Teoria Geral do Esquecimento  (José Eduardo Agualusa); [2] Uma Criatura Dócil (Fyodor Dostoiévski); [3] Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde (Mário de Carvalho); [4] Terrence Malick (Contemporary Film Directors) (Lloyd Michaels); [5] Ingmar Bergman, Cinematic Philosopher: Reflections on his Creativity (Irving Singer); [6] The Cinema of Terrence Malick: Poetic Visions of America (Vários. Edição: Hannah Patterson); [7] A Dúvida (Vilém Flusser); [8] O Designer Humilde: Lógica e Ética para Inovação (Charles Bezerra); [9] Design para um Mundo Complexo (Rafael Cardoso); [10] Do Desespero Silencioso ao Elogio do Amor Desinteressado  (Soren Kierkegaard. Organização: Álvaro Valls); [11] Língua e Realidade (Vilém Flusser); [12] Basic Writings (Martin Heidegger) …ainda estou lendo e relendo partes dele; [13] The Doors of Perception & Heaven and Hell (Aldous Huxley); [14] I Am a Strange Loop (Douglas R. Hofstadter); [15] Os Demônios de Loudun (Aldous Huxley); [16] Os Verbos Auxiliares do Coração (Péter Esterházy); [17] A Contadora de Filmes (Hernán Rivera Letellier); [18] On Evil (Terry Eagleton); [19] Milagrário Pessoal (José Eduardo Agualusa); [20] A Alma Imoral (Nilton Bonder); [21] O Vendedor de Passados (José Eduardo Agualusa); [22] Marina (Carlos Ruiz Zafón); [23] Um Estranho em Goa (José Eduardo Agualusa); [24] O Prisioneiro do Céu (Carlos Ruiz Zafón); [25] Fora de Mim (Martha Medeiros); [26] Por que Virei à Direita (João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé, Denis Rosenfield); [27] Nemesis (Philip Roth).


Posted by: CAROL


O  mundo está tão cheio de livros, como falto de verdades. E oxalá que nos homens fossem, de algum modo, tantos os frutos quantas são sem número, nos livros, as folhas. Mas a desgraça é que, por mais que sejam muitos os notadores dos livros, são muito mais os que no mundo vivem notados; e não basta vermos encadernados os livros, para que deixemos de ver desencademados os homens. Com efeito, são os livros os suores dos homens ou o engenho dos homens; e está o mundo tão emendado, que já ninguém vive do suor alheio.

Padre António Vieira  |  “As Sete Propriedades da Alma”

Ilustração de fundo: Alexey Kurbatov | Ilustração de Antônio Vieira: desconhecido


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Dizes tu que os livros te não consolam!? Que te irritam!? Que blasfémia, minha Júlia! Pois há lá melhores amigos!? Os livros, mas livros destes em que a alma dos bons anda sangrando por todas as suas páginas; livros que eu beijo de joelhos, como se enternecidamente beijasse as mãos benditas dos que os escreveram! Lê os versos de António Nobre, o meu santo poeta da Saudade. Lê o «Fel» de José Douro, o malogrado poeta esquecido e desprezado. Lê «Doida de Amor» de Antero de Figueiredo, e depois diz-me se eles te irritam!”

[…] “Os livros – é o remédio que eu sempre receito e quase sempre dá um resultado razoável. Ponho em jogo o egoísmo humano, e lembro-me de que sempre há-de consolar a nossa dor o espectáculo da dor dos outros.”



Florbela Espanca  |  ” Correspondência” (1916)

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Posted by: CAROL


Minhas deliciosas férias acabaram e estou de volta para substituir minha querida amiga JUJU, que não pode escrever nada além de sua dissertação de mestrado até março. Ela não consegue ficar sem dizer nada na net, pelo que percebi ontem ao visitar o twitter...rsrsrs… mas acho que lá é somente uma forma de desabafar, de vem em quando, e bem rápido!

Só pra Juju: Aliás, que ataque de “fofoqueira de celebridades” foi aquele? …hahaha… Até tu, Brutus! … Brincadeirinha, sei que a cabeça está cheia de “filosofices, psicanalices, antropologices” e demais “ices” que eu possa xingar neste meu ataque linguístico aos assuntos que ocupam teu pensamento. Para desabafar, só falando de “bobagens” como o vestido verde da Angelina “que raiva dessa mulher” Jolie… 😉

Bom, mas agora “estou aqui” de novo e tentarei postar algumas coisas interessantes que encontrar ao longo do dia. Não que a gente ache que tem leitores e seguidores do blog. Não temos! É mais o costume de falar sozinha mesmo que invade a vida virtual…haha

Este meu primeiro post de janeiro é para a Juju, porque sei que ela vai gostar desta história… Livros são sua paixão, afinal!

Coragem no trabalho, amiga! Vai em frente, apesar de tudo (as adversidades externas são muitas, eu sei). Torço por você e, agora, mais de pertinho…rsrs… na mesma cidade calorenta e abafada!

Beijos, CAROL

PS:  Mal entrei “nesta estufa” de cidade e já morri de saudade do frio acima do trópico de câncer! 

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Uma coleção a partir do lixo

(fonte: Blog da CULTURA – autoria: Kelly de Souza)


Seu nome é José Alberto Gutiérrez. Todos os dias ele dirige um caminhão de lixo em Bogotá, e com seus ajudantes despeja grandes latas no caminhão. No meio das latas existem caixas e dentro das caixas José, de repente, encontra um exemplar de Anna Karenina, de Tolstói. Ao remexer melhor a caixa encontra outros livros, que retira do caminhão e os leva para sua casa. No dia seguinte, uma nova jornada e José encontra, em outro endereço, uma outra lata de lixo, uma outra caixa e outros livros. Ele já reconhece facilmente esse tipo de “entulho”, e novamente os leva para casa.  “Então comecei a perceber que os cidadãos de Bogotá costumam livrar-se dos livros que não querem e os jogam no lixo”, explica José.

Convidado especial da Feria Internacional del Libro de Guadalajara, México, José falou sobre os mais de 12 mil livros (aproximadamente cinco bibliotecas) que conseguiu juntar desde 2000.  Segundo o jornalClarin, que cobriu o evento, o catador de lixo, digo, de livros, parecia estar um pouco desconfortável na cadeira que já havia sido ocupada no evento pelo autor brasileiro Paulo Lins (Cidade de Deus), ou por Jean-Marie Gustave Le Clézio, autor de Diego e Frida (2010) e Nobel da Literatura em 2008, entre outros. José sentou-se com humildade, pediu uma simples Coca-Cola ao garçom, e ficou constrangido com os fotógrafos. Não está acostumado a nada disso, e ficou embaraçado com os aplausos na entrevista, onde explicou como surgiu a ideia de encher o primeiro piso de sua casa com livros encontrados pelos lixos da cidade.

“Minha mãe lia para mim, nos acostumou a ler. Não eram muitos os livros que tínhamos, eram como folhetos de estudo onde havia histórias, fabulas… e todos esses continhos me enriqueceram. Quando eu já era adolescente havia em Bogotá muitos livreiros de rua, então comecei a comprar livros, e aos 13 anos, mais ou menos, comprei a “Odisseia”, de Homero. Fiquei apaixonado pela mitologia”, ressaltou José. A vida foi passando, a coleção foi aumentando e os clientes da sua esposa (costureira) viam aquela imensa biblioteca. Alguns pediam livros de escola emprestados para seus filhos.

José percebeu que os livros que eram jogados fora, que estavam no lixo, não estavam sujos ou estragados. Pelo contrário. As pessoas quando têm suas salas e quartos carregados de “recuerdos”, ou livros, se desfazem deles com respeito e os colocam em caixas separadas, não juntando ao lixo perecível. Assim, em 2000, ele e sua mulher decidiram montar uma biblioteca. “Iniciamos numa sala grande, conseguimos estantes e mesas, os vizinhos vinham visitar e levavam livros emprestados. Montamos um catálogo das pessoas, e estas começaram a fazer também doações, e mais livros foram chegando… e começaram a surgir os Círculos de Leitura, as oficinas… e nos demos conta que o bairro havia ficado pequeno e fomos explorar outras regiões de Bogotá, e outras 3 bibliotecas foram instaladas”. Uma delas está localizada na zona rural, na casa de uma família campestre e a biblioteca é manejada por uma garota de 12 anos.

José não recebe qualquer ajuda oficial, embora as autoridades conheçam seu projeto. Não existem subsídios, apoios financeiros e ele segue sozinho mantendo seu caminhão, indo todas as noites “pescar tesouros” nos lixos da cidade. Milhares de livros devem ser jogados fora todos os dias em São Paulo, Rio, Belo Horizonte e em quase todas as grandes cidades do país, assim como em outras metrópoles do mundo. Centenas de bibliotecas poderiam talvez ser instaladas só com esse material, esse lixo, esse lixo sagrado que é o livro descartado. Numa das salas de José, logo na entrada, escrito na parede, está um dos pensamentos mais dignos de Jorge Luis Borges, onde ele imagina que o Paraíso é como uma grande biblioteca. É lá que mora José Alberto Gutiérrez, o catador de livros.